quinta-feira, 30 de abril de 2009

Do velho tema

Vênus Pantaneira - Museu de História do Pantanal


Do velho tema

Amor é treino, drible e, às vezes, tento.
Amor é tanto trauma de aparência.
Amor é tema livre, e não isento.
Amor é teima, vive de insistência.

Conceito não define sentimento.
Palavra não reverte em consciência.
Sentença não resolve por intento.
Gramática não serve para a essência.

A dúvida permeia resoluta,
Bombando seu veneno com poder,
O peito dos amantes iludidos.

Amor é o que ninguém acata à luta
Por outro para si, que é para arder
No fogo que dá vida a seus adidos.

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terça-feira, 28 de abril de 2009

Vovozinhas



by Ron Mueck: hyper-realist sculptor


Vovozinhas

Percebo o tom da voz, não é veraz,
São duas as velhinhas no cochicho:
Que dizem de si mesmas, entre chás
E manhas e ademanes e comichos?

Percebo, são vovós e doces mas
Não sei se terão netos, se capricho,
Cuidado pequerrucho de vivaz
Carinho permissivo como bichos

De estima... São vovós e são maçãs,
As cascas para o chá no vespertino
Consolo, solidão... Não têm ninguém?...

Vovós em pandemônio, tam malsãs,
Ofícios de um esteta serpentino:
A carne é silicone e o sangue, nem...

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domingo, 26 de abril de 2009

"Alto dos Passos"



"Alto dos Passos"

São duas as muletas ao sustento
do corpo, seus aclives de quiabo.
À flor do gelo fino, pronto o gabo,
em clima de showbizz, um argumento,

um voo de luzidio e vão contento.
Eu sou o passarinho dando cabo
do canto, o desafino pelo rabo
do riso, o desafio que apascento

a gramíneas e ciscos. Humanal
sem sonho, o que me resta de desejo
são passos por ali e por além.

Ao alto, pela luz etc. e tal,
ainda que no rasto ou no manquejo,
ainda que no mal ou que no bem.

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sábado, 25 de abril de 2009

Mais atormentado que Morrissey



http://www.guiavegano.com.br/vegan/images/stories/pessoas/morrissey.jpg


Resumo da ópera: bati com o carro; estava só - como sempre - e apenas eu me danei; machuquei o queixo, me deram dezoito pontos; quebrei o tornozelo, me deram três parafusos. Acabei de sair do hospital e - de acordo com o contexto - estou me sentindo bem.

O mais importante, amigas e amigos de blogosfera, é que agradeço muitísimo por terem se preocupado comigo e me mandado suas vibes. Para além das tragédias, comum a todos nós, voltemos à poesia...



Mais atormentado que Morrissey



Um homem dedicado se apresenta,

Um homem que é na linha de esquivança,

Um homem por enfado e para a dança,

Não sabe se reprime, ou se contenta.



Um homem delicado na tormenta,

Mas um atormentado na bonança.

Sabendo-se soldado na mudança,

Se sabe ser do menos, se acrescenta.



Os homens são de regra sem afeto,

Efeito das mulheres que os amaram

Demais e de seus pais que são a luz.



É homem em diverso desse aspecto,

É homem em que as fêmeas, ai, se amarram,

Um Morrissey que símile seduz.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Dicas de viagem




Até mesmo os góticos merecem uma temporada num lugarzinho bem quente... Eu, por exemplo, me enamoro de montanhas cônicas em dias de muito sol.
Viajar? A-do-ro! Embora permaneça a vida inteira ruminando minha palidez dentro de casa, ou melhor, dentro de mim.
Ai, que vontade de rir.

Abaixo, quem estiver com vontade de rir, digo, viajar, digo, ler, há três textos que não se ligam de modo nenhum à capa do livro acima. Não mesmo?!
(Risos).



degelo

ao chão
navega
trafega
desvãos

o são
sonega
em sega
ao cão

é deus
flagelo
de lavas

e o seu
singelo
às favas



Carnaval dos vermes

Eu sou aquele curto de emoção,
Um cérebro que sente pequenino,
Um antissocial, a solução
Por mim em água e sal do meu destino.

Eu sei que sou igual aos outros são.
Mais, não. Mas eu sou cândido, defino
Que ser desejo ser de coração
E, assim, não vou chorar quando do sino.

Preparo minha cama para quando
Da máscara caída ao carnaval
Meu rosto for exposto caducando.

Educo os sentimentos, silencio-os,
Sem lágrimas nem ais, eis o final,
Aos vermes macilentos e macios.



Em trânsito

Recende-me em sentidos, se és sentida.
Renasço onde tu queres, em infinda
Certeza de que quero o que, querida,
Requeiras para mim. E, mais ainda,

Se és rosa de carmim que me convida
A alvíssaras à vida. Minha linda,
Ao seio desse bruto, na guarida
Do sumo sacerdócio, sê bem-vinda!

Sou dócil como o dom de flutuar,
Sou bolha de sabão dalgum petiz,
Sou bem, e bem mais leve do que ar.

Sou fácil como o céu que eu mesmo fiz
Na folha de papel do meu sonhar,
Se há sol vou para lá: o meu país.

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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Dois sonetos acerca da alteridade

http://static.panoramio.com/photos/original/356977.jpg


Versus


Somente é na peleja que o melhor

Obriga-se à cereja do glacê.

Na briga que lhes cega é o que se vê,

Em cima desse ringue, pela mó,


Torturas abscissas, mal maior

Ordena-se por cima, assim porque

Vencido e vencedor são só você

Sonhando que você está sempre só.


Sonhando desse jeito, não se dão.

O tal do preconceito pelo contra

No peito cordial se desencontra


E o choque de elementos é a questão.

Termina-se com os manos feito otários,

Os dois sendo só um, um solitário.




Bar Abbas

Amigos pela cruz de Barrabás,
Amigos de Jesus, ou seus irmãos,
Cordões que são cortados porque jaz
A vida pelo umbigo. E é pela mão

Da vívida sem máculas, na paz
Da casta mamãezinha do sermão,
Que crescem inimigos. Ferrabrás
Das brasas abrasivas, contramão

Na via das virtudes atestadas,
Eu quero do meu sangue – que é contigo;
Eu quero, pois, exangue do que esbanjes,

Que é bem e patrimônio por estada
Na casa da família. Sem abrigo,
Arqueja-te, inimigo, ao meu alfanje!

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sábado, 4 de abril de 2009

Abstrações & imaculadas nuanças de vermelho na paleta

Painting "Red Fade 2" - by Kathleen DeFrancesco Smith




Crísea

O quanto diz a crise com seu manto,
Negrume de pictórica demência,
O tanto que desfia seu espanto
No plano da profunda dependência,
Dá corda para a forca do fracote,
Dá força para a falha reticente,
Dá tudo por que nada, só garrote,
Dá linha para a trama de quem sente
Recente a recessão. A muito custo,
Crepúsculo de números, balanço
Vermelho como o sangue, pelo susto,
Borrifa. Globaliza-se no lanço,
Define do que fomos ao seremos,
Serena feito soma de somenos.


Condão

A grana em filigranas de moeda.
O gume em arabescos de papel.
O câmbio são cruzadas para o céu;
Cristãos, cavalicoques, para a queda.
O travo de gravatas se intromete
No grama da balança para o pão:
Há míseros anarfas um tempão
Sentindo-se excluídos da claquete,
Inclusos numa massa suicida
Que nutre de consenso tumular
As valas e as valias a bailar
Doidaças com o fermento. Fim da lida:
Ao par da fantasia, não se cota
A ação do fabulário que se esgota.

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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Je suis noir...

http://filmhistory.files.wordpress.com/2007/10/maltese.jpg




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Por trás daquele muro pichado

A casa desalinha-se em sujeira.
O pó é já de entranhas, as decora.
As teias se acumulam como feira
De aranhas e o terror é por agora.

A roupa de encardida, como cheira.
Os móveis não se queixam da demora.
Os restos pelas tampas das lixeiras
E, insetos legionários dentro e fora.

A louça toda à pia, como fede.
Há vermes consumindo o que foi ceia,
Em cena bem difícil para a vista.

No quarto do casal, não se vê, que é de?
O sangue no lençol veio da veia
Do santo que Jesus veio em visita.





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Tipo “O Falcão Maltês”

O cara se aproxima de lilás,
espocam-lhe miríades de lodo,
um riso meio travo para trás,
aos olhos de uma sombra. De uma sombra?

A moça que observa é bem capaz
de intriga, competente por engodo,
a luz de um abajur define-a, mas:
que isso, meu amor, assim você me assusta!

Na cama havia sangue e a lingérie
de oncinha,
feito uma trama aborígene.

O tarja preta
próximo do bilhete, cocaína,
a lâmina...
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