domingo, 31 de maio de 2009

Balaio Porreta 1986

- somente os olhos aduncos de um Moacy Cirne
percebem o poema abaixo -




Recebi, por mais uma vez, a honraria de estar presente no Balaio Porreta 1986, do incurriculável Moacy Cirne. Para se ter uma noção do cara, ele escarafuncha poemas até no grafismo dos kadiwéus (vide acima)... E não é só isso não, dizem as más línguas que ele é, provavelmente, a maior autoridade em HQ no Brasil. Apesar de professor universitário já nos suspensórios de seus aposentos, o cabra não para de pesquisar e de produzir intensamente. Pelo jeito, só falta ter nascido no Rio Grande do Norte, ser simpático, entender um pouquinho de cinema e de sci-fi. Mas, ó, tem muito mais ainda nesse balaio da porra!


No mais, respiremos um muito de cultura lá no Balaio
e também no Poema-Processo
Depois do fim, vou postar abaixo um poema nada a ver em homenagem ao Chico Doido de Caicó.


O falto

A falta satisfaz ao deprimido.
Dá alta ao moribundo por que pene.
Assalta a drogaria, comprimido
ou pílula de mal que lhe apequene.

A falta sobressai-se a sua libido.
A falta sobressalta-se perene.
Efeito de um peralta descabido
ao cabo da pilhéria que o condene.

O falto sempre cai... e mais ainda...
em cãs, despenca ao caos de um holocausto,
ao forno de uma besta que lhe brinda

à câmara de gases, e ele, exausto,
o fio de seu vazio não deslinda,
fastio lhe acompanha como fausto.

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sábado, 30 de maio de 2009

e-blogue.com



A galera gentil do e-blogue.com selecionou um texto do Henrique Pimenta para a sua edição de número 19. Quem quiser conferir... Abaixo, há informações para aqueles que desejarem conhecer o zine e, talvez, divulgar seus trabalhos lá.

Atenção, blogueiros!
Está no ar o zine virtual E-Blogue.com (http://e-blogue.com/blogs), um espaço voltado única e exclusivamente para a produção artística que usa a internet como principal ferramenta de divulgação.
Envolvendo, a cada edição semanal, cerca de dez artistas de diferentes áreas, o E-Blogue.com mistura literatura, fotografia, desenhos, música, HQs, vídeos, uma pitada de ousadia e uma proposta muito clara: encontrar tudo o que merece ser encontrado na web.
Mas ainda não foi.
Segundo Jana Lauxen, uma das e-ditoras e fundadoras do portal, “existe muita gente boa produzindo e publicando na internet um material incrível. Escritores, desenhistas, músicos, fotógrafos que ainda não encontraram seu espaço nesse mercado tão atulhado e confuso, recorrem à internet para divulgar e até mesmo comercializar o seu trabalho. O problema é que, neste palheiro virtual, muitas vezes os bons se perdem em meio aos médios. Nossa intenção é encontrar os bons”.
Além do zine semanal, o E-Blogue.com ainda envia, todo mês, seu Zine-Mail, com os trabalhos mais comentados das quatro últimas edições.
Por isso, fica o convite aos blogueiros, artistas e arteiros de plantão: o E-Blogue.com tem a ousadia e a pretensão de provar por A + B que a internet também nos reserva grandes e agradáveis surpresas.
E por falar nisso: o que você tem para mostrar?
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Canção



Canção

Se flor, se borboleta, não se sabe...
A cor sobre a paleta do fascínio,
fac-símile do belo que não cabe
no súbito cutelo do assassínio.

São lâminas finíssimas da FAB?
É o sabre pelo fim do raciocínio?
Se flor, se borboleta, o que se gabe
desabe sobre o céu, seu vaticínio.

Do luto todo preto na tarjeta
da caixa de remédios para o plim,
a pílula dourada do condão.

Transportam-se a lagarta de sarjeta
e o pó de uma mobília de cupim
à flor e à borboleta da canção.
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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Amor, amor, amor

Alguns dizem, respeito-lhes a assertividade, que apenas Jesus Cristo é amor. Eu, contudo, flertando direto com a completude de minhas imperfeições, sempre tive uma quedinha pelas mulheres e, confirmo, não pode existir amor sem mulher. Agora, mulher sem amor, putz!, existe também. Mas eu insisto! Em quê? Em quem? Ah, vamos aos poemas.


Amor, amor, amor

Amor, amor, amor, o sentimento
sentido com que sinto como certo.
Sei lá! Isso será?! Sei que decerto
preciso de senti-lo com acento,

vigor, em exagero, um alimento
vital, uma tragédia em que desperto,
comédia às genitálias em aberto,
perigo, o que há de bento e de sebento.

Cabeça que se quebra quando parte,
destina-se ao quadrante em seu olhar,
seus lábios, seu país. Como um tumor

no cérebro se alastra, como a arte
no seio de alabastro, como o lar
em seu solo solar: amor, amor...



Amor

Amor é baboseira, e que tamanha!
É leso com leseira que não cura!
É curra sem carinho, picadura!
É teia entretecida pela manha!

Amor é uma derrota que, arre!, ganha!
É beijo de judeu à face pura!
São répteis que se comem com fartura
de crias, acepipes das entranhas!

O diabo que o carregue para mim,
por Deus!, porque eu preciso do suplício
de vez, pelo revés do meu avesso!

Amor se desenvolva porque sim!
Ao fim, que eu seja escravo desse vício!
O fim que nem sequer teve começo...
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terça-feira, 26 de maio de 2009

Henrique tenta compor uma descrição de sua amada



Henrique tenta compor uma descrição de sua amada

Consigo. Sou feliz. Eu reconheço.
Consigo sou feliz, não me repito.
Eu sigo a sua luz, meu endereço,
meu lar, meu domicílio de infinito.

Mulher na palidez desde o começo,
eu amo o que há na pele de interdito,
na carne em que vegeta me enlouqueço,
nos líquidos que afloram desse mito.

De modo decadente na capela,
as flores murchecidas ao calor
que exala do meu peito e de umas velas

dispostas para o brilho do palor.
Museu da tal Tussaud teria nela,
garanto, mais ingresso e mais valor.
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domingo, 24 de maio de 2009

Tirando um fino do obituário



Algumas interjeições de dor

Uma vidente me previu um acidente.
Eu fui imprevidente, a cabeçorra
perdi e me esqueci daquela porra.
No fim, o tornozelo, o queixo, os dentes

se lembram com a porrada de repente;
no poste, na madruga, sangue e zorrra
que jorram... E o desmaio... Não que eu corra,
lentinho tava o fusca, é que a Serpente,

Prudente para As Artes, me requebra
nas ancas o seu dom de mundanal
folia, e me penetra como um dardo,

e o Fado me destina alguma quebra,
sutura, quase a vértebra no pau,
mas não, não foi o fim deste bom bardo.



Tempos depois...

No pé três parafusos por meu zelo,
por fora o robofoot imobiliza...
Fui dar de cara a um poste: o tornozelo
partiu-se em pedacicos à pesquisa.

O queixo no volante em atropelo
cortou-se horripilante, e o parabrisa...
Cadê? Tava no chão! Como rompê-lo?
Não sei, nem vou tentar, que aterroriza.

Agora tô legal, faz mais de um mês,
e passam ligeirinho na ampulheta
as dores deste estúpido freguês.

O tempo cicatriza à malagueta,
e o mal, pois, se dirige à sensatez
do bem, em companhia de muletas.



Todas as noites são longas

Eu temo pela noite, em abandono;
eu tomo Pasalix e Rivotril;
eu tento então dormir mas não há sono;
eu choro pela dor e porque é vil;

eu, trêmulo de insônia, não abono;
eu testo o meu limite e me esvazio;
detesto deste corpo quem for dono;
eu mando tudo à puta que o pariu!

Nervoso, vou cedendo ao bom combate!
Se a fórmula tem preço, meu, eu pago!
Careço de uma ausência curandeira!

Eu lembro de mamãe e algo me bate:
o sol já vem nascendo quando apago
com o clássico chazinho de cidreira.
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ao chororô pela cátedra de literatura brasileira

Dedico esta postagem ao poeta e romancista José Carlos Brandão, mantenedor do excelente blogue Poesia Crônica.


"Este livro é pois um ensaio ou antes amostra. Verá realizadas nele minhas idéias a respeito da literatura nacional; e achará aí poesia inteiramente brasileira, haurida na língua dos selvagens. A etimologia de nomes das diversas localidades, e certos modos de dizer tirados da composição das palavras, são de cunho original." - acerca do idílio de Martim com a virgem dos lábios de mel, em carta ao Dr. Jaguaribe, agosto de 1865.


Ao chororô pela cátedra de literatura brasileira

Quem lê literatura brasileira
na escola porque deve, de castigo,
cumprindo o PCN na coleira,
caída adolescente em texto antigo,

cuidado com a leitura de primeira,
que prima porque exige que o perigo
permeie todo o livro de maneira
que oculte a tessitura num abrigo

rupestre e, nesse escrete de encrencar,
o cérebro moçoilo só blasfema.
Na língua deste livro (um Alencar),

o tema e mesmo a trama... que problema!,
dilema como lema há de elencar:
quem hoje há de chorar por Iracema?!
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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Poeminhas de apelo popular VI


A quem me interessar possa, o Balaio Porreta - do Moacy Cirne - publicou hoje, cuidadosamente, alguns bons autores e, por descuido, publicou-me também. Se quiser conferir...



fama
cama
fama
cama
fama
cama
fama
cama
fama
cama






depois do fundo do poço sem fim
ouça:
dois lances de escada
e um trampolim -

basta apenas um salto para a bocada
abismo de mim







se me amas
chama de vexame
enxame de chamas






xiiiii...
o chiuaua
uau-uau!
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terça-feira, 19 de maio de 2009

À flor do paraíso



Fernando Pessoa aos dez anos de idade



Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
- Ricardo Reis, 14-2-1933


À flor do paraíso

O lago onde se espelha seu entorno
e o céu não é Narciso com seu mito,
bucólica paisagem de retorno
às leis de um paraíso sem conflito.

Em luz e mansidão nos seus adornos
de simples perfeição, tudo bonito
e ingênuo, florescendo seus contornos
e cores, renascendo o que é bendito.

À lâmina do lago uma pintura
de divina paleta. A serpente
presente com a maçã se esvaneceu:

lacuna para o mal, a cena pura,
até que uma criança, de repente,
detona com uma pedra contra o céu...

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domingo, 17 de maio de 2009

Domingo na família cristã

tratada em Photo Scape por Thaís Pimenta



Pode parecer que sou um poço (sem fundo) de sarcasmo, devido ao desenvolvimento de alguns temas, porque lhes é comum exibirem sem pudor os fundilhos. Mas eu afirmo peremptório que sou apenas um instrumento nas mãozinhas inefáveis das Musas e, por isso, apenas lhes sirvo de meio para seus desejos... E o que elas fazem com os seus dedos longilíneos... não é de minha responsabilidade.
Uma dica nada a ver e tudo haver: o Santo Gus (Mestre da Seita Papagaio Mudo) pirou de vez e homenageia criticamente as boas fases (lisérgicas) do Pink Floyd, destacando o lúcido demente Syd Barret. Eu gosto. Quem quiser o transe, uau!, clique aqui.


Domingo na família cristã



Domingo é da família e do retardo,

um dia para sol e bicicleta.

Eu temo que O Senhor nesse resguardo

deseja que eu descanse e seja atleta:



brincar com meus filhotes, em petardos

de enérgicos programas. Que repleta

rotina a de quem ama ao grande fardo

das crias e à parceira se completa!



À missa de manhã, livrar-se logo.

Depois, meio perdido, o que fazer?

Aos poucos, uma cerva, uma caipira,



na frente da tevê, antes do jogo.

Os filhos no computa, com prazer,

e a amada cozinhando o que suspira.



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sábado, 16 de maio de 2009

A dor




A dor



Pedimos analgésicos potentes.

Choramos pela dor, uma constante.

Bradamos pelos deuses existentes.

Uivamos para o demo nesse instante.



Ao par de interjeições de penitentes

e junto de calões, os mais gritantes,

a dor não alivia ao descontente,

a dor impaciente e penetrante.



O Centro de Pesquisas sobre a Dor

expede um relatório com minúcias,

mas nada nos explica por que tanta.



Destino dos humanos ao Credor?

Certeza pela queda e suas súcias?

Há dor? A analgesia não adianta...



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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Amor em Deus






Amor em Deus

Eu amo quem me odeia e me detesto
por isso, mas não posso, não desisto
de amar. Eu sou vencido porque presto,
que tenho compromisso no que invisto.

Não amo o menosprezo, não protesto,
mas vivo desdenhando por que existo,
serviço de profissa pelo resto,
que viça porque encontra cá seu Cristo.

Da cruz, de saravá, de namastê,
Meu Deus se multiplica na atitude
de entrega aos seus diversos com ardor.

Pois é! Eis minha crença, meu auê!
O par por mim temido que se mude,
que agora o ser vencido é o vencedor!


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terça-feira, 12 de maio de 2009

Lira de mim mesmo

Ave exibindo o rabo - Picasaweb

Poética

Não prezo quem me lê, por ele cago.
Meu texto é o meu prazer e é solitário.
O preço que exigir, vou lá e pago.
À merda todo o resto literário.

No livro, um ideal? Senta no nabo!
Nas letras, todo o céu? Só se for vário!
Que a arte é social? Vai dar o rabo!
O autor tem seu papel? De salafrário!

Laboro uma poética de pronto,
verídica e sem lastro de frescura,
inábil para flores e descontos.

É tara porque dana com a censura;
é rara porque chega sempre ao ponto;
é, pois, literatura cara dura.



Do soneto

Com métrica e com rima é que proponho
restrita solução para o problema
que vem da poesia; como um sonho,
demanda a meu engenho por sistema

perfeito que conceda ao que componho
clareza e concisão, seguindo o lema
dos clássicos com classe, e não o bisonho
que trava a solavancos seu poema.

O método operando por estilo;
a forma se amoldando para a meta;
ideias se articulam; e eu prometo,

seguindo para o fim, pelo destilo,
na trilha de elegância deste esteta,
a verve envelhecida do soneto.

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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Samalandra


Samalandra

Instável no delito que cometo,
insano na certeza de que é falta,
revelo-me em pecado, me intrometo
com as fuças neste incêndio do Peralta.

Perversa a consequência como espeto
na carne de churrasco, o fogonauta
se rende para as cinzas e o esqueleto
recende ao fumacê que já ressalta.

Se a fêmea tem juízo, não teria
no périplo metido o humano couro,
teria menos dor, mas, histeria...

Se eu, macho, me apegasse ao Seu Tesouro,
Meu Pai... Creio, pior, pois perderia
o gozo desse instante imorredouro.



(Imagem captada na Wikipédia).
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sábado, 9 de maio de 2009

Decálogo de nós

by Alyssa Monks


Decálogo de nós


- para a sensibilidade de Betina Moraes

1. Boa parte da infância eu adorava me maquiar com as coisas da mamãe na frente do espelho. E colocava as roupas mais bonitas que ela possuía. E desfilava sorrindo. Eu tinha uma verdadeira adoração pela imagem feminina. Sempre preferi as mulheres aos homens. Amava mais a minha mãe, era como se ela fosse Deus: o único Deus possível.

2. Minha mãe plantou a semente do bem no meu coração. Mais tarde, floresci um homem estranho...

3. O espelho nos convida ao jogo de esconde-esconde.

4. Por meio da alquimia, nunca revelarei a fórmula que transforma ouro em virtude.

5. Aprendi com a ciranda que todos podemos cirandar e sermos felizes.

6. Com a válvula queimada da televisão, eu fiz viagens e mais viagens interplanetárias no fundo do meu quintal. Astronauta da NASA? Ou apenas um herói para o universo das formigas, das lesmas e das minhocas?

7. Ruptura é a revelação do outro!

8. A criança de ontem hidrata a fantasia da terceira idade.

9. Quando as mulheres entram em conjunção com a natureza, até um grânulo de pó adquire o contorno de Deus.

10. Fênix possui sempre um aroma de cinza-bebê.
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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Dois ang'los

Romeo and Juliet - Sir Francis Dickee

Floresta Solidão

Amor? Mas se estou só, não poderia.
Um filme de terror sem personagem,
Em clima de palor à lua fria,
Ruídos de animais para a selvagem
Floresta Solidão. Um homem só,
Já disse que não posso, não possuo
O mínimo que anima nem gogó,
Vocábulo de lírica. Recuo.
O quarto, um universo de suspense,
Será que susterá de sua trama
O rumo para a dor a que pertence
O corpo no destino de quem ama?
          Eu troco o duvidoso pelo por
          O corpo, pois, no topo do torpor.

Ao trabalho

São horas de trabalho, mas não venço.
Há muito o que fazer. Azar de quem?
Eu penso que desejo e me convenço
Que devo mais lazer e mais alguém.
Amor é uma palavra de consenso,
Termômetro de febre que convém,
Um mal que faz sorrir, perder o senso,
Limão para o tempero pegar bem.
Eu amo esse trabalho menos denso
Que invade minhas veias, mais além,
De luz e de alegria, mar imenso
De vagas que as escumas não contêm.
          Assim é o meu trabalho dado à vida:
          Seu fruto é o meu amor à bem servida.
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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Laboratório

Human Heart - in Fallingpixel



Laboratório

Eu sei que me detenho neste tema,
mas sou repetitivo porque tento
resposta que convença ao mais atento,
discurso que conclua esse problema.

Eu quero que a menina não se trema,
o peito que se expede em pensamento,
o crânio que se expande em sentimento,
compósito de tramas, um esquema.

No plano detalhado para a meta,
coordeno-lhe seus pontos com cuidado.
Parece-nos agora que o processo...

Contudo se é amor que se projeta,
em pane são meus cálculos e dados,
me perco do controle e do sucesso.

***
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segunda-feira, 4 de maio de 2009

"El sueño de la razón produce monstruos"

"El sueño de la razón produce monstruos" - Francisco José de Goya y Lucientes


Templo ortopédico

É claro que a manhã me desaponta,
Convida para a luta rotineira,
O tédio consciente que desponta
Ao dia leonino... Que canseira!

Besteira! Ser desperto à coisa pronta,
Sem eira, ao menos beira, de bobeira,
À lida de um dalai que não dá conta
Da paz e da harmonia e das olheiras.

Profundo, o novo templo que me ajusta
Perfeito na dormida pelos idos
Dos tempos da manhã, que é tão estéril,

Eu fundo numa cama de vetusta
Mania, para a glória dos caídos
Em vão e para o logro do mistério.




Dispersão

O sono vem à tarde e permanece,
depois daquele almoço de dois pratos,
querendo que o descanso não me estresse,
relaxe-me inteirinho em seu extrato.

Eu abro uma bocarra feito prece,
imploro por um canto para o fato:
que a fada a fantasia que entretece
ao fardo do trabalho cumpra o trato.

Eu caio, pois, das pálpebras ao nada,
aqui, por onde estou, e, desse jeito,
me encontro na mais calma das moradas.

A cama de improviso é mais que um leito,
refúgio para a alma tão cansada
das máscaras despertas do imperfeito.

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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Três cenários suburbanos

Sinuca - óleo de João Werner




Ocultação de bens

Um templo foi aberto na garagem,
a tempo da coleta de domingo,
receita garantida mais que bingo,
graninha de Jesus e de seu pajem.

Irmãos, o meu sermão é uma viagem
que leva para a vida de respingo
do sangue que liberta, enquanto xingo,
infindo pelos fundos da mensagem.

Em breve esse brinquedo ganha foros
de sério e um dos cinemas do passado
tem teias removidas para o culto.

Começa o descarrego pelo couro,
e diz que espiritismo é mal pesado,
termina revelando o bem oculto.


Bolero misturado com samba

O cara vai à zona de pijama.
A linda se apaixona pelo cara.
Os dois, pois, se aconchegam numa cama
e, após, pois, se chamegam numa tara

de gosto duvidoso. O par se gama,
repete o ritual, ele não para,
deseja que deseja e faz a fama.
É a lenda da menina que dispara

da vida de puteiro suburbano,
sem máculas, no amor purificado,
por Nossa Senhorinha da Assunção.

É a lenda do senhor que é ser humano,
que acolhe sua escolha sem passado,
nas bocas da Favela Coração.


A bola da vez

Madruga, mais cerveja, mais sinuca.
Boteco, meia dúzia de malucos
pagando para ver quem da muvuca
desiste deste sol que já dá truco.

É truque tomar uma a mais de uca,
mistura que cai bem no vuco-vuco,
nos trinques, mais um drinque para a cuca
que explode criativa como um cuco.

Um tiro, de repente! De onde vem?
De fora para dentro do barzinho
e encontra seu destino numa testa.

É justo quando o sol já se vê bem:
agora comemora-se com vinho,
miolos mal passados para a festa.
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