segunda-feira, 29 de junho de 2009

Há mar em Minas



Há mar em Minas

Calcinha e sutiã, mas para quê?
Escondem os furinhos e os relevos
da fêmea possuída por enlevos,
ingênua como um anjo de MG.

Sorri. A lingerie como que um selo
de gelo nos seus elos com os porquês
dos céus e dos infernos. Lucidez?
Vertigem? Mas se Deus deseja zelo

demais, topografia de biquíni,
do bronze e das marquinhas de menina,
à nudez delicada, nota 10,

e, em pelo, que encapele e desatine
seus fósseis, seus vulcões, sua morfina,
um mar de carnaval pelas galés.
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quinta-feira, 25 de junho de 2009

Love song

Edvard Munch, "Death And Love"

Love song

Amei uma mulher, apenas uma,
jurei fidelidade, e fui fiel,
não sei se foi por isso, ou pelo fel
que emana do ciúme que se esfuma

nos olhos do mistério do papel
passado no cartório da comuna...
Enfim, a maravilha da fortuna
vivi com escassez, em escarcéu.

Enfim, nos finalmentes fiquei só,
a sós com meu silêncio de bocó,
da dúvida credor e devedor.

Enfim... Mas nem adianta ao menos "oh",
morrer, dar de beber ou cheirar pó;
se a porra vai doer, que venha a dor!
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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Cooperativa de lã



Cooperativa de lã

Pedaço padecendo penitente,
decepo minha aresta com juízo,
a justa das medidas ao decente,
que a cinta seja casta deste esquizo.

Eu desço do gigante inexistente,
que empáfia prometia com sorriso,
não peço que consiga nem que tente
os dentes da serpente, como o guizo.

Senhor do pastoreio no cuidado
das novas e das velhas do rebanho,
na conta em que é preciso todo dado.

O Todo se me cuida como um ganho,
se soma, valoriza seu coitado,
que um dia a diferença faz tamanho.


*** Seguindo o mesmo tema de "O filho dos prodígios", aí embaixo.
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domingo, 21 de junho de 2009

O filho dos prodígios

The prodigal son or the triple spiral labyrinth... - in Wikipedia



O filho dos prodígios


O filho dos prodígios bate a porta,
nem olha para trás, arrependido
somente da demora, não ter ido
mais rápido dali, mas não importa.

Agora foi embora para - corta!
No craque tem seu vício de bandido,
gastou cada moeda, está falido,
só pensa na família dantes torta.

Planeja a sua volta pianinho,
saudade da galera que sofria
com a falta cosanguínea deste mano.

Num rito que é de sangue para vinho,
que o simples não difere da utopia,
humilde bate à porta, ser humano.

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sábado, 20 de junho de 2009

Dois malabares

Palhaço malabarista - por J. Pedro Martins

Dois malabares
O galo que amanhã na madrugada
confirma com seu canto que haja luz
é próximo do gênesis, do nada
floresce, encarna, anima e nos deduz.
Eu deito sobre o tédio que haja nova
manhã, por conseguinte, que haja giz
e quadro para Deus. Mais uma prova,
um dia em desacordo de aprendiz
e mestre, que a palestra antes do teste
meus olhos defenestra para a rua.
Na rua haja perigo, o que não preste
e tudo o que infernize e não conclua.
..........Meus olhos, que vos pedem no sinal,
..........são dois dos malabares, afinal.

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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Micro

Selo de garantia da Barbie


Ao canto
O galo cantou às cinco em ponto. Tarde, tarde demais para o sr. Silva, que dançara às quatro e cinquenta na UTI.


Encantamento
A Barbie original se escondeu debaixo da cama enquanto a “amiguinha” pirata, sem uma das pernas e com os cabelos em pandemônio, era estuprada lá em cima. Prince charmant é o caralho!


Corte
No beco, seus golpes de fôlego, suor e a certeza de que já estava mais do que na hora de receber a derradeira do destino: sangue na lâmina...


Coisiquinhas de criança
Quando estreou sete passinhos, falou “eu te amo, mamãe”, fumou, pigarreou, bebeu, bebeu e declamou o “Se se morre de amor”.


Fama
Daria a alma de Goethe (com Charlotte e Werther de lambuja) para ser famoso. Aquela noite sonhara com o sucesso. Acordou, foi ao banheiro, depois à cozinha passar um café. Já era a terceira vez do filtro e do pó.

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terça-feira, 16 de junho de 2009

Mínimo



Ângela Rô Rô


Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada
Assim como as canções
Como as paixões e as palavras

Composição de Ângela Rô Rô e Ana Terra.
Com todo o respeito, mas a
interpretação original é imbatível.


Mínimo

Acessos de calor e gelo fino,
a língua com sabor de sobremesa,
amor por um sentido no sem tino,
amor que é de serpente e de surpresa.

Amor, meu grande amor, meu genuíno,
um único, não mais, da natureza
do coice pelas drogas de refino,
tal qual uma assunção para a beleza.

Por meio desse belo displicente,
por meio do que é simples e divino,
divido minha vida facilmente

com tudo o que quiser o meu menino:
amor que permanece no que sente,
amor, meu grande amor, de pequenino.

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sábado, 13 de junho de 2009

La prière d'un païen - Baudelaire

Charles Baudelaire


“Já se disse, e não sem razão, que Baudelaire é o mais misterioso dos poetas da literatura ocidental. E esse mistério pode, em parte, ser decifrado: ele nasce de um sistema de tensões, de um sortilégio que se estabelece entre o quê e o como da expressão poética, que resulta no amálgama perfeito entre a emoção e o rigor formal, é a precisão de uma arte de joalheiro, de uma ourivesaria que pressupõe a frieza extrema, o cálculo, a precisão, e que apesar disso manifesta-se como a mais pungente expressão de uma dor e de um júbilo sem limites. A arte de Baudelaire é, por assim dizer, a consumação verbal do indizível.” - Ivan Junqueira


Por atrevimento e como forma de, copiando os mestres, me exercitar um bocadinho em línguas outras e estilos que admiro, por vezes, heroicamente apresento a meus leitores (os seis ou sete que insistem) uma tradução. Agora, portanto, o herói fracassado apresenta-lhes um pouco do “indizível” de Charles Baudelaire.
No mais, acrescentei a impecável tradução do Ivan Junqueira e, também, umas outras, para quem quiser se aventurar em "acareações"...


A prece de um pagão

Não te deixes as chamas calmas!
Ao fogo, o meu torpe caqui!
Volúpia, tortura das almas!
Diva! suppplicem exaudi!

Deusa nos ares convertida,
Flama que é de nossa tez, agra,
Cumpre n’alma de frio vida,
Canto de bronze te consagra!

Volúpia, sê minha rainha!
Mascara-te em sereiazinha
Com corpo de carne e veludo,

Ou verte-me teu sono mudo
Em vinho de monge e chiclete,
Volúpia, fantasma que flete!

- Henrique Pimenta


A prece de um pagão

Não deixes esfriar tua chama!
Minha alma entorpecida aquece,
Volúpia, inferno de quem ama!
Escuta, diva, a minha prece!

Deusa no espaço derramada,
Flama que dentro em nós desperta,
Atende a esta alma enregelada,
Que um brônzeo cântico te oferta.

Volúpia, abre-me a tua teia,
Toma o perfil de uma sereia
Feita de carne e de veludo,

Ou verte enfim teu sono mudo
No vinho místico e disforme,
Volúpia, espectro multiforme!
- Ivan Junqueira, As Flores do Mal (RJ: Nova Fronteira, 1985, 6. ed.)


Modlitba pohanova

Ó Rozkoši, ty trýzni duší,
nic neochabuj v ohni svém,
hřej dál mé srdce, jež mráz kruší!

Exaudi, diva, supplicem!
 

Bohyně, jež jsi kol nás všady,
plameni v našem podzemí,
slyš duši, jež ti, zkřehlá chlady,
věnuje zpěv, jenž jasně zní!

Ó, buď mou kněžnou ustavičně!
Osvojuj si tvář nymfy sličné,
tak hebké jako aksamit,

či rač mi těžké spánky dštít
v mystickém pracujícím víně,
ó Rozkoši, ty pružný stíne!

- Svatopluk Kadlec (http://www.baudelaire.cz)


The Pagan's Prayer

Ah, damp not yet the living coals!
Heat once again my heart in thee!
Voluptuousness, thou scourge of souls,
Goddess, incline thine ear to me!

Spirit abroad in the bright air,
Flame in our dark and secret ways,
Freezing I bring thee — grant my prayer! —
A song of brass to bruit thy praise!

Siren, be still my sovereign; keep
Thy kingdom; wear thy mask, whose mesh
Is half of velvet, half of flesh!

Or pour me out thy heavy sleep,
In mystic and amorphous wine:
Phantom elastic and divine.

- Edna St. Vincent Millay, Flowers of Evil (NY: Harper and Brothers, 1936)


La prière d’un païen

Ah! ne ralentis pas tes flammes;
Réchauffe mon coeur engourdi,
Volupté, torture des âmes!
Diva! supplicem exaudi!

Déesse dans l'air répandue,
Flamme dans notre souterrain!
Exauce une âme morfondue,
Qui te consacre un chant d'airain.

Volupté, sois toujours ma reine!
Prends le masque d'une sirène
Faite de chair et de velours,

Ou verse-moi tes sommeils lourds
Dans le vin informe et mystique,
Volupté, fantôme élastique!

- Charles Baudelaire
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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Eletropub


Eletropub

A luz que me pertence não é minha,
lumia para todos, O Universo,
e tudo se esclarece em frente e verso,
os dutos para A Paz que se encaminha.

Eu via pelas dores, mas não tinha
visão, porque evidente fui disperso
do foco e na sequência, pois, converso
a mim, não desisti do que detinha.

Ao cego, derramando pela borda
seu ego, que é mantido por que o parta,
a fim de que se veja e como aborda

seu visto na cegueira, a mesa farta.
Que as partes iluminam-se nas cordas
cardíacas do Príncipe Siddartha.


Nota: já havia criado o título, mas o sr. Google me disse depois que existe uma casa noturna denominada Sótão Eletro Pub. Só para constar, não tem relação nenhuma (em princípio, né?). Obrigado!
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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Val



Val

Suspeito que desejo e, desejoso,
respeito se me negas o pedido.
Pedinte de teu corpo para o gozo
do corpo que deseja o teu, sentido.

Um preito de escorreito, corajoso,
correto sentimento de um perdido,
bem perto de onde Deus é perigoso,
no peito de seu anjo decaído.

Não finjo de feliz o que padeço,
semente envelhecida para a messe:
a amara sobremesa da razão.

Entulho-me de dor e me entristeço,
segunda, singular, que tu me esqueces,
porque eras 100% da vazão.
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sábado, 6 de junho de 2009

Água e sal

Foto de Marco Antonio Cavalcanti - publicada em O Globo Online



"Tua língua em meu mamilo, água e sal", na música Bandeira, de Zeca Baleiro.
 
Água e sal

Desisto desse gado, desses bois,
de flatos, de mugidos, de excrementos.
Depois de uma banheira, bem depois,
dispondo-me de grades e cimento,

a cama é uma mobília para dois,
a cama de casal tem cabimento,
a cama que nos serve bem depois...
Me lembro do seu corpo sem memento,

em sumo, como púbis e mamilos,
a língua nos mamilos e no púbis,
o fogo nas papilas d'água-viva;

eu penso no pescoço e em tudo aquilo
que afunda nas piscinas de seu clube,
no mar que invade a cama com saliva.
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quinta-feira, 4 de junho de 2009

Da persuasão

The evil Iago (Kenneth Branagh) pretends to be friend of Othello (Laurence Fishburne) in order to manipulate him to serve his own end…



El conocimiento y la comprensión sobre los demás es sabiduría.
Lao-Tsé

El primer publicitario de la historia es el demonio en forma de serpiente, cuando dijo a Adán y Eva en el paraíso: “El día que comiereis de este árbol sereis como Dios, conocedores del bien e del mal”.
Marçal Moliné, fundador de la agencia MMLB



Da persuasão

Se é tudo o que sabemos "nada sei",
convenço-me da posse que propago,
do nada que cambia para a lei
de escambos, por um útero ou, um bago.

O umbigo se comporta como um rei,
cintila no furdúncio de seu vago,
divaga-se na lábia com seu "ei,
eu tenho uma quedinha por Iago".

Na fábrica dos sonhos da cabeça,
invento uma proposta para a venda
do pomo tentador da liberdade.

Um brinde "made in China", que pareça
de graça, determina que transcendas,
que compres com prazer e autoridade.
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terça-feira, 2 de junho de 2009

BRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR



Invernada

Um ócio gostosinho paralisa.
À fome quadruplica-se a gordura.
Nariz, vermelhidão pela coriza.

Dois olhos lacrimejam à gastura.
Confesso que detesto: traumatiza
a têmpera ao revés, desestrutura.

Brrr! Ai! Lã, moletom, nem estilista
calhorda se dá conta do vazio,
que é plena tremedeira no que é vil
debaixo da coberta jornalista.

O gelo nos atinge pugilista,
parece por vingança prato frio,
os dedos são cadáveres: um fio
de fuga pela espinha que se dista.


Hecatombe

O tempo não dá, porque a dor
nos ossos da cripta do lombo
do cara de bruços do tombo
tirita sob quilos de ardor.

Da cama desiste, calor
nenhum, nem a febre aos escombros
heróicos... O sol causa assombro
e o caos mitifica o tremor...

Ao nimbo de sonhos amargos,
por mares em ondas de mal,
os nautas no rumo de Argos:

o frio destrói-lhes a nau,
o frio nos cornos anarcos,
o frio na carne infernal.



Mais dois pontos:
1. não importa se 2009 é, oficialmente, o Ano da França no Brasil, porque nesse momento a dor é universal;
2. postei, abaixo, La femme chocolat, na interpretação impecável de Olivia Ruiz, para diminuir o frio e os casos de anorexia.
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