segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Dois sonetos

Dois sonetos


Amor e compulsão

Amor que determina a que imaturo
Sistema devo opor o meu polar.
Amor que me destina a seu futuro.
Amor que me confina ao circular.

Amor que me insemina pelo furo
Que é dentro do meu par, laço solar.
Amor feito uma sina que faturo
No fogo que me ensina a congelar.

Aos passos que são dados sem temor,
Ao pó que é delicado na imersão:
Impulsos de expulsar o pé do chão.

Ar puro por que eu viva com amor,
Que o par me sobreviva com pulsão:
Convulsos de pulsar pela paixão.



Não dízimo

Amor não será dízimo por nós.
Entrega de meu corpo pela calma.
Renúncias. Desapego pela voz,
Silêncio respeitoso de minh'alma.

Amor será cedência pela foz
Ao mar de imensidão que nos espalma
Em mar de mansidão, e enfim a sós
No mundo mais perfeito, o fim do trauma.

Fazer por esses bens o que lhes renda:
Não juros, mas virtudes, cocuruto;
A troca de emoções, e não a venda.

O máximo de ganhos sem um puto,
O máximo prazer que nos desvenda:
Amor é cem por cento de tributo.


*** Mestre Moa jogou-me de novo em seu Balaio Porreta. Ai, que felicidade!...
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sábado, 26 de setembro de 2009

Teste

Formiga - by Seth Malakai




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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Arábias



pés descalços
crisântemos amarelos
montanha ensolarada

- três versinhos da lírica


Arábias

1.
Tecida na luz macia, define seus movimentos nas firulas do sol uma película cigana. Um setembro que se ilumina e sustenta as promessas feitas ao sêmen do sr. Helianto. Um setembro para acariciar o tempo que insiste em preencher de flâmulas umedecidas aos seus cavaleiros de pólen.

2.
Pedimos perdão pelo vinho das aves aduncas, por seu azedume tinto. Perdão pela navalha em desvario, Senhor! Ofertamos a Vós tudo o que nos provê de ingenuidade primitiva. Ofertamos um pires com gengibre ralado.

3.
A esperança se compromete a longo prazo com os clichês de paz e amor e deslumbramento. Ainda que nos reste apenas uma côdea bem pequenina de pão integral, eu te amarei e nos pacificaremos. Assim é que todos os mitos do mundo, principalmente os eróticos, apreciam o nosso desapego. Suspirinho...

4.
Não nos iludamos, porém, porque tentarão nos secar em todos os humores e não nos oferecerão vapores d’água tampouco balões do mais puro oxigênio. Apenas nos ofertarão um cachorrinho-robô de madama, duas balas de menta com formigas e uma quantidade bastante desejável de opióides. Devemos, paixão de todos as minhas existências, preferir o sangue dos mártires e os pulmões depurados a tantos artifícios.

5.
À noite fui dormir com minhas barbas completamente encanecidas... Eu tive um pesadelo. Mas, quando acordei, percebi que minha vida só teria sentido na eternidade que nos infantiliza, por isso abri um buraquinho na caixa toráxica da Primavera e nos joguei naquele escaninho denominado Mandala do Sonho: pés descalços, crisântemos amarelos, montanha ensolarada...


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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Das sereias



Alamares

A seiva cristaliza, pedraria,
Resina do velame em verde mar
De jade e de esmeralda a tornear
O vaso com o licor da poesia.

A nave e seus estames em Omar,
Autor do Rubaiyat, que sevicia,
Por lauta cerimônia de ambrosia,
Por faltas, em essência, a quem amar.

O verde sobre e sob não domina,
Que o sangue se rebela no cinema
Das líquidas auroras leoninas...

Sereia d'arrecifes, d'alçaprema,
Assaz desassossego d'anilina,
Tragédia que conquista a alma suprema.



Sereia

O som meio sonâmbulo vicia,
Assoma ao seio bambo do covarde
E a cisma que atravessa principia
Tormentas. A sereia e seu alarde

Alarmam por amor à poesia
Das lágrimas no peito de quem arde
No frio de uma fossa à salsa via,
Sargaços e moréias, em um mar de

Indolentes afazeres: imersão...
O som, o som, o som, o som, o som,
O som vem sibilando como fachos,

Um lume que impressiona e faz pressão,
A música-farol serpeia com
A nau que é contra a rocha, para baixo.



Canção marítima

Escuto uma canção de algum lugar
E, junto, o coração em alvoroço,
Eu ouço, mas não posso com o pescoço
O risco do recife eliminar.

Sereia, em seu dulcíssimo cantar,
Nas pedras que se escondem ao insosso
Marujo, que se encanta para o fosso,
No barco embebebado pelo mar.

O mito se revela no meu imo,
O mito não nos mente se nos lemos,
Ensina-nos Ulisses do perigo.

Que a voz azul desliza pelo limo,
Converte-se em um monstro por extremos
E encontra nos abismos seu abrigo.



***
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Churrascaria Hollywood


Churrascaria Hollywood

Estou no bico do urubu faminto,
Contenda pelas tripas que se dão,
Urubus e urubus... Um deles sinto
Levando um de meus olhos, porque é tão

Macio, uma delícia verde (minto,
É lente!) de leituras de condão;
Um outro carniceiro todo tinto,
Semblante de Jack Nicholson, então

Em louco de papel, ao bisturi
Cegueta, por moela e coração.
Ah, nunca me senti tão desejado.

O prato principal a todos ri,
Servindo a seus convivas da porção
Com sangue de egoísta esquartejado.


 

*** Mestre Moa publicou em nosso Balaio Porreta um soneto de Monsieur Pimenta. Se puder prestigiar, clique .
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sábado, 12 de setembro de 2009

Soneto marítimo


Soneto marítimo

Um homem se apaixona pelo chão
da fêmea, por seu húmus, por seu imo,
seus poros, sua pele, por seu limo,
seus líquens, pelo sumo da paixão.

Um homem se apaixona pelo primo
lavor da fantasia, comichão
nas partes que se molham ao caixão
da mínima das mortes... ai, que mimo!

Escumas de sereia que se encerra
ao cúmulo do mar em histeria,
acúmulo, o que for, e quem seria?

São dois ao inefável de extraterra,
em barco de origami e maresia,
um homem na mulher que lhe extasia.





*** Casa, poeta, voyeur profissional, antropólogo amador, taradinho pós-moderno, ex-aluno do Pimenta na 6ª série e mais uma série de coisas que não seria de bom alvitre elencar, postou um soneto (não sei se erótico ou) pornô meu, ineditíssimo. O blogue do cara Casa é o Erotório e deve ser acessado aqui.
*** Casa também está passando por uma excelente fase com seus textos no Entre as palavras e eu. Eu, portanto, recomendaria que você clicasse aqui.
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Compêndio de entomologia


Compêndio de entomologia

À sorte de uma língua sem frenagem,
À solta com seus ditos desditosos,
Detalhes e contextos perigosos,
Diálogos que intrigam a mensagem,

A via se inicia na viagem.
Ao cabo de minutos talentosos,
Em doidos torvelinhos borrascosos,
A borra se revela: sacanagem,

Que porra! De mosquitos, marimbondos,
Abelhas, vespas, grilos e baratas,
A boca locupleta-se à pletora.

A boca se alimenta contrapondo
Seu lanche entomológico de erratas
De fora para dentro e, para fora.



*** A poeta Betina Moraes me encerrou na Redoma. Por favor, estilhace a Redoma aqui.

*** A poeta
Nina Rizzi me cerrou numa colaboração no blogue "Maria Clara: simplesmente poesia", em homenagem à Frida Kahlo. Por favor, descerrem a Nina, o Pimenta, a Clara e, principalmente, a Kahlo aqui.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Poeminhas de apelo popular VIII

by Rafael Flora




Entre o 23º e o 22º

Eu sempre tive uma quedinha pela morte...


Zwischen den Stockwerken 23-22

Ich bin immer fallen in den Tod...






Pedra como um ninho:
acolhe-nos, caminhantes,
durante o caminho.





- p/ a poética de Betina Moraes

Cruzo de través,
mas, se não fores quem és,
eu... cruzo outra vez...





Nunca mamei.
Eu só chupava dedo.
Mas, quando senti o sabor dos teus mamilos...

Je n'ai jamais sucé du lait.
Je viens de sucer seulement le doigt.
Mais quand j'ai senti le goût de vos mamelons...





... minha casa é aqui e agora...
mas a minha casa mesmo não é aqui nem agora...
enfim, minha casa, tua casa...





Clube da Esquina 3

(acerca de um vídeo em Vaga-Lumens)

A sina me ensina:
capaz de encontrar a paz
no tigre na esquina.





Monólogo

- Deus, estais a fornicar por mim e em mim?
- Sim...





miau-au-arrulho-socorro!
gato assusta pombo
com o cachorro
no lombo!




a haicaísta-psi
em vez de sol
nascente
só sente eclipse




mendigo
ouro dentro
veio comigo




Se Deus diz "entra!";
Eu entro.
Se Deus diz "senta!";
Eu sento.
Se Deus diz "deita!";
Eu deito.
Se Deus diz "rola!";
Eu rolo.
No fim do protocolo,
Para passar no crivo:
Se Deus diz "finge de morto!";
Eu, tolo, vivo.




A sombra desfia
seu viés de fria à luz
da fotografia.




tarja preta
fitinha do nosso senhor do bonfim
neon em piscadelas:
MOTEL 24 HORAS
MOTEL 24 HORAS
MOTEL 24 HORAS




aallll
aahh ccooooll
aallccoohhooll





haicai de pateta com dislalia

iac
ai
cai




saber de aprendiz
quando o mestre põe na língua
essência de anis





brainstorm para a unidade dois

põe aí:
os opostos se traem
os opostos se opõem





Eu sou meio sem jeito.
Quem mira no meu peito
descobre o meu defeito,
se admira... Perfeito!





canino

cão sem dono
rabo de abano
em abandono...





Dizem que sou tantã
Porque tenho bom senso
À Ascensão de Satã.




não gostas?
dá as costas
e encara de frente
o diferente




ai, a frecha
antes de chofre
que de chifre





- p/ putas resolutas

vadias
vão de noite




o amor é uma coisa tão delicada
tão delicada
que se você chamar
vem viadinho
ele vem




se florescer
é flor

flor é ser
se flor




- p/ Santo Gus

ame & bah!
brame
a
ameba
brâmane...





leite na tigela
para o tigre de bengala
banguela





- p/ alguém especial, muito especial

o sol que viceja
à flor da cerejeira
anuncia ser amor
e não cer
eja


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domingo, 6 de setembro de 2009

Ruralista



Ruralista

Mercúrio se esparrama pelo chão,
termômetro de vidro pelo piso,
aos cacos, e nem houve medição,
não há do bebezinho o grau preciso.

Madruga na fazenda. A criação
abriga-se do vento, seu aviso.
Apuro da mamãe: ai, coração!
Apuro do papai?, um indeciso...

Se sofre com o dodói, quem é que sabe?
Tão longe da cidade e do hospital,
e o pânico tão perto manicura...

Queria o teu lugar, mas não me cabe.
Daria a minha vida, coisa e tal.
Só Deus, se não morrer, é quem te cura.



*** O escritor Lívio Oliveira uma vez mais me fez a gentileza de colocar um texto de minha autoria na Revista de Cultura e Arte "O Teorema da Feira". Se puderem prestigiar, amiga leitora e amigo leitor, a clicagem é aqui.
*** Vou indicar também a leitura de um soneto "às meninas", escrito em portunhol selvagem, pelo grande poeta Douglas Diegues. Excelente é o mínimo que posso dizer. Conheça "las mininas", clique !
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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Crisântemo




Crisântemo

Eu canto com fagulhas, seminal,
as cores que dominam por ascenso
os éditos do sonho com incenso,
os sólidos em líquido na val.

Encantos no grotesco virginal,
imagens de uma câmera de imenso
poder que está a depor por que não penso,
que sinto o devaneio no plural.

Num átimo divino me transmudo
em átomo primevo, crisântemo
dourado para o trono sem contudo.

Desato o supra-sumo mais extremo
em éter, em et caetera graúdo...
Enleio-me à altitude do Supremo...


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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Brucutu




brucutu - segundo o Aulete Digital
(bru.cu.tu) Bras.
sm.
1. Homem grosseiro e abrutalhado; PRIMATA (2); PAQUIDERME (2)
2. Viatura blindada de repressão policial.
[Etim.: Obsc., posv. onomatopaica.]




Talvez me esteja vindo de uma memória ancestral o Bruto cool, digo, o Bruto cu, digo, o Brucutu (nas origens Alley Oop - criação de Vincent T. Hamlin)... Lembro-me de que esse troglodita habitou a minha infância cavernosa... Esse que é hoje o símbolo maior do homem homem mesmo, do macho, o desejo de todas as mulheres...





Brucutu 1

Um macho canastrão é por quem sonho,
um sonho de cristã, de uma carola
que exibe o seu perdão e que, ora bolas!,
dirige-se de irmã ao carantonho.

Garanto-lhe cristão, dele disponho,
salvá-lo por um triz de sua bitola,
bastando que o calão me passe cola,
que o rito do infeliz não é tristonho.

É bronco mas é meu, e não lhe toque!
Me entope com seu Eu, mas que sacana!
Me empina de pandorga e com o bodoque

me ensina porque a porca se me espana.
Se brinca de U2, se me faz rock,
meu bruto brucutu!, vou ao Nirvana...





Brucutu 2

Um bruto que não trepe como dama,
que morda meus mamilos, que me dane
no corpo e no demais, não faça drama;
me estrepe em que mereço, não me engane.

Eu quero um brucutu na minha cama!
Não gosto de mesura e de ademanes,
adoro quando o cara nem me ama,
mas mostra que dá conta até da pane.

Eu amo, mas te odeio. Se intrometa
no meio da razão, não me dê chance;
me esgane o coração, mas não prometa.

Detesto e mais te adoro, nesse lance
de setas de Cupido e do Capeta,
na trama desse estúpido romance.











*** Tirinhas de Alley Oop aqui.
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O meu Parnaso




O meu Parnaso

- à Arte pela Arte, sempre...

Senhoras, não profano o que é sagrado,
eu oro pelo verso bem medido,
as rimas combinando com agrado,
os pés em andadura ao tom devido.

Senhores, eu me sinto um integrado
à seta do nubífero Cupido,
amando; não fulano desregrado,
aos prantos, pantomima de marido.

Poeta, com meus vícios depurados,
não deixo de ser punk nem milico,
milito sendo artista do balaco,

aninho os infinitos disparados
ao bem do bom Apolo e faço bico
no vinho de "Evoé!" do caro Baco.
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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Alz...






Alz...

É deste manicômio o sentimento,
o senso de uma perda consciente,
sentida como falta ao calçamento
um paralelepípedo recente.

Aos poucos vai se abrindo um monumento...
abisso, o bojo côncavo, o solvente
que absorve e vai dragando o são memento,
o pó no mosto plúvio decadente.

Revolve-se com o vento e se enriquece,
e tudo contribui para o vazio,
silêncio consentido, sem um ai.

Em coma, à galeria que lhe esquece,
desmama-se da luz e é por um fio
no túmulo da gênese do Pai.


*** Em tempo: Moacy Cirne, hoje, compartilhou-me em seu Balaio Porreta.
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