domingo, 28 de fevereiro de 2010

Au-au









  


Polaco

Polaco ou Polaquinho é um senhor,
Um poodle já de idade e meio sério,
Não brinca mas não banca de agressor,
É o sono o que prefere (só é fero
Sem zzz...). Ele se abanca a qualquer canto,
Dali faz seu alegre cemitério
Até que bata o rango, "Me levanto
E espero da ração que tanto quero
No pote de alumínio, com bastante,
Dieta de muitão do bom canino
Com fome de um autleta". Num instante,
De volta a sono e sonho, o meu menino...
     Assim é como chamo o meu grão cão:
     Polaco, Polaquinho, Polacão.








 


Anita

Anita é a minha poodle criançola,
Adora brincadeiras e não para,
Direto no portão, ela dispara
À gente que se assusta ao seu isola.

Anita é, como dizem, muito rara,
Simpática sorri quando quer colo;
Me exige petisquinhos, mas enrolo,
E a cara é de "Qual é a tua, cara?!"

É mesmo por demais, uma fofura,
Gracinha do papai, o meu au-au,
Menina que celebra a gostosura

Com a cauda que se abana desigual:
Se chamo sua atenção, me dá uma dura;
Se faço cafuné, é tão legal!


*** Sim, eu amo os meus filhinhos peludos!
*** Lívio de Oliveira apresenta-nos Ron Mueck  e publica meu soneto siliconado no Teorema.
*** Ignacio Vázquez apresenta sua pesquisa e consegue me definir a contento lá no Sonsonete de sonetos.
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Do gato morto

 
Half cat - by Roland 3791

Soneto do gato morto (Vinicius de Moraes)

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.


Elegia para o gato morto (Domingos da Mota)

Com os olhos pregados no infinito,
no mais fundo de si, já revirados
e os bigodes suspensos pelo grito
que alvoroça as pombas nos telhados

e com o céu da boca, se aflito,
mesmo à beira do fim, agoniado,
e o pêlo sedoso tão esquisito,
de súbito a ficar amarrotado,

na procura apressada de outra vida
renascida das sete que viveu,
que não vê, não encontra, pois perdida
como alma penada lá no céu

dos gatos: foi assim, quase descrente,
que vi o gato morto, de repente.



Um gatinho sem miau (Henrique Pimenta)

O sol ia de quente sobre o asfalto;
Eu ia à medicina, da calçada,
Tranquilo, bom cristão, quando de assalto
Uns olhos de felino, que maçada!...

Constranjo-me de pronto pelo falto
Na coisa se cozendo mal passada,
Seu sangue com seus bofes de ressalto,
E a vista do que vejo, tão cansada!...

O vômito se fez; eu engoli.
Mau cheiro do pobrinho oriental.
Há moscas! Mais havia por ali!...

Verei o que ainda vejo no que vi
Agora, bem na frente do hospital:
Agoura-me esse extinto de seu mal.


*** Domingos da Mota é um poeta português que admiro. Gostaria de recomendar o seu blogue: Ao Rés do Nada.

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Amor é dúvida?

 
18 octobre 1936 - par bwiti


AMOR É DÚVIDA?

Amor é dividir por dois a dúvida.
Amor é duvidar a dois da dívida.

. . .


Ao fim a pevide
(licença devida!)
em um se divide:
amor, morte e vida.

. . .


A mesma dúvida

Amor é dúvida, não é?
Amor é frêmito no peito,
Amor é freio, por despeito,
Cardiopatia, porque é.

Amor é dívida de fé!
Amor aposta no malfeito,
É não ter fôlego direito,
É travessia sem dar pé.

Amor motiva, mas deprime.
É estar aqui, mas nem  aí.
É como um filho com tumor.

Amor liberta pelo crime
Que se executa contra si.
Mas o que é mesmo o tal amor?...

. . .


Elegia à eleita

Distante. Negligente, porventura.
Nem sei o que depor, uma tortura.

Tortura para dois, nos aparelha,
Partilha de pesar para a parelha.

Se primo pelo sol, por que evolua
A pedra do meu peito para lua,

Me cego para ti? Porque não vejo,
Desejo o que não vi nem antevejo?

Eleita, nesse mundo o que acontece
É malha de armadilhas que se tece

Por mãos de uma caquética sincrônica,
Compósito de fábula com crônica,

É caos contemporâneo, nativista,
Sereias de cilício, mar à vista,

Timbós e catimbós, misericórdia!,
E o mais é conterrâneo da discórdia.

Voltando ao que te elege, pois, eleita,
Nomeio-te febril pela maleita:

Aumenta a têmpera que tens, amor,
Gradua para cima, mais tremor...


*** O amor, enquanto mesmo, não se trata de uma figura de retórica. Sim?
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Quaresma

 


Iluminura carioca

Madonna com Jesus na Passarela
do Samba, não entendo o que inaugura,
mas inaugura, com augúrios, ela
com ele. Toda a mídia da cultura

(e da fofoca), pela foto dela
co'a cria ali no colo... que postura
seria para a capa e para a tela,
seria lançar luz à iluminura!

Devido à compostura (simulacro?),
a dupla se conteve como bamba,
discreta como deve, nem um fraco,

barraco nem um houve, mas descamba
ao menos a um deslize, que destaco:
fenômeno divino que não samba.


Ode à camisinha

Se vem do Vaticano o vaticínio,
O contra do "preserva", para a tal
Da camisinha, anticoncepcional
Não pode, cometemos assassínio...

Ao ir da temperança para o ígneo,
Ó Pai, eu não fui bem, não foi por mal,
Entrei na contradança ao carnaval,
Entrei e fui de encontro ao seu desígnio.

Brincando desse esporte tão gostoso,
Botei para foder, mas bem saudável,
Fodi como um demente insaciável!

Parceiras mantiveram-me no nível,
Excesso pra caralho, mas, incrível:
Não trouxe nem um filho com meu gozo.


***
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Do corpo

 
Le nu provençal - W. Ronis


À paz do corpo

O que se pacifica na rotina,
No gelo do silêncio percutido,
Na louça pela pia, na cortina
Da sala, que é puída, no ruído

De insetos voadores à retina,
No chão que é por varrer, ou que é varrido,
No longe decadente que domina
Seus atos, perdição do que é perdido,

Tambor de marcação ao que se jaz,
Se busca nas galés, internamente,
O que se pacifica não é paz.

Tambor de coração até compor
O corpo que não teme o vão temente,
No meio da rotina a seu dispor.


Dádiva

Incorporo o teu corpo como posso,
Um osso com carninha de pescoço,
Um poço de fissura em cada poro.
Agrado-me de ti, de tua soma.

Eu ponho o teu no meu para ser nosso.
Componho-me de entranhas e de fosso,
Entalho os teus detalhes, passifloro,
E, grave, o teu espírito me assoma.

A frente é mais além,  feito uma estrela.
O dorso para mim, em asas, doce.
O dois que se faz um, de uma costela.

Escarro do meu sangue, a tua tosse...
Dispneica, já sem pulso, desatrela...
Incorporo o teu corpo como posse.


***
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domingo, 21 de fevereiro de 2010

lili

 
animated fractal - by skymonk

lili

1.
hipnose pela noia das guitarras
e um hammond diamond serie
a fim de que as cores se irisem em take it easy

2.
gritar como um primata que se esgana de feliz
na amazônia psicodélica de ganesha
coreografia de deborah colker
para a psy trance de shiva

3.
syd barret numa trip striptease
entoa OM para as artes de são bispo
exus de vime a colher das hastes do sol
um cadiquinho de luz para a doutora nise da silveira

4.
a galerinhamente freak se decifra
mamilos e clitóris
botõezinhos de música play... que delícia!

5.
sininhos & cítaras de etc.
churrasquinho vegan ao senhor krishna hare hare

6.
envoy:
acomodadas confortavelmente sobre o inefável
as sandálias de francisco saúdam
a florzinha bebê que se desabotoa em pétalas


*** 21022010
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

chacrinha brabuleta

Sepia - by Mariaell

chacrinha brabuleta

p/ nydia bonetti

aberto o livro da chacrinha brabuleta
aos poucos gerânios papoulas e sempre-vivas
a dicção do silêncio pronuncia-se em amor de seus lábios
uma brisa retrai lentamente o rocio da madrugada
duas gotículas nos meus olhos de humanidade e
ai cintilâncias
as cardiopatias se esvanecem
as máscaras se entregam ao solo de incêndio sub súbito
os demônios do roschard se escafedem de joelhos
e eu só tenho vistas à dulcíssima violeta que me ascende ao sol
eu sou feliz sim porque tenho leitura no beabá das sutilezas
sei ler as minúcias do azul as filigranas da rosinha cor
os grafismos da sépia o perfume de sua nuca
todas as páginas da bem-aventurança
todas
ei
é a líquida luz iridescente de oxum
que movimenta sinestesicamente os seus quadris
com travessuras arcangelicais
por isso que a cachoeira canta canta canta as cantigas
d'alegre segrel légère
pois eu danço o saltarello com você
arrepios na pele deflagram mil torvelinhos de não sei
sua inocência me sobreleva ao sublime
seu colo me esplende né
sapinhos vão me assuntando ressabiados
periquitinhos pinicam goiabas num parlatório do caramba
amiga
logo logo cairemos em slow motion sobre a relva
ladeados de lírios gérberas hibiscos agapantos
e nem vou discorrer acerca das reticências
já disse que sou feliz...

*** nydia bonetti é uma excelente poeta e provedora do blogue longitudes. eu recomendo.
  
*** saltarello - by vox vulgaris


( ny, a gi falou que é sincronicidade. ah, mudei o título! eu escrevera "ofício"... )
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Quatro mulheres (por uma dose excessiva de Florbela)



Tia Odete

Que o diga o mundo e a gente o que quiser! - Florbela Espanca

Que tédio! Uma tragédia se repete...

Fofocas no velório sobre herança,
Apostas sobre o próximo que dança,
Pagando dez por um p'ra tia Odete.

O mal põe sua boca no trompete,
A chuva de serpentes que se lança
Com botes e boatos não se cansa,
Veneno, melodia, canivete...

Extrato mais humano de inocente,
Que trata ao seu do meio pelo médio,
De médio para menos, e nem sente,

De menos para mínimo, despede-o.
Odete ao desemprego não é gente.
Na fila de indigentes... Ai, que tédio!


Serena

Porque o meu Reino fica para Além... - Florbela Espanca

Desdém é o meu de voto para a vela

Que acendo para as trevas quando temo.
Diverte-me o terror que se desvela
Ao leve tremular do que me extremo.

Ungida por meus vícios de cadela,
Recebo presentinhos quando gemo.
Armada a diamantes sou mais bela,
As gemas são grilhões com que me algemo.

Sereia dos abissos dos prazeres,
Rainha do promíscuo nestes seres,
Insiro-me ao Supremo com orgulho.

Imploram-me por mais, por isso treino
Por mais e mais além desse meu reino;
D'alcova para a cova, pois, mergulho.


Muda

Silêncio, meu Amor, não digas nada! - Florbela Espanca

De dentro que não, eu não ditarei

As regras para teu comportamento.
Entranhas para fora, mostrarei
As unhas com meu sangue, e não, lamento.
Não quero um pedacico, me cansei,
Prefiro, na tristeza, a que é de nada
À bisca por um cisco de "não sei,
Sei lá, quem saberá da abandonada?"
É reino sem rainha nem um rei,
Condão sem ladainha de felizes...
Do que me vem aos lábios calarei,
Do mel que é de teus lábios, e não dizes...
     Mas não me melarei numa blasfêmia,
     Que sou, com meu silêncio, tua fêmea...

*** VIEIRA FILHO dialoga com meu haicai em The lair of seth-hades.
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Amor é meio de finício...

The Return - by Ruth Sant Cortis

Amor mor - making of


Amor mor

Eu temo pelo amor, do que é capaz.
Amor é destemor e não se omite
À morte com seus termos para paz,
A morte é seu terreno sem limite.

Amor é pelos filhos, pelos pais.
O Todo, com seus tudos em seus kits.
O Super e o mirim se sentem quites.
A terra como os céus se sentem mais.

Refletem-se prazeres como dor,
É lágrima e sorriso com morfina
Na safra desse alegre sofredor.

Embaixo são rigores, disciplina -
Em cima são espasmos de esplendor -
Amor é o infinito que confina.



Das Índias

 Dou-te o meu corpo prometido à morte! - Florbela Espanca

Eu cumpro o prometido por volúpia,
Celebro o proibido que profana,
Favores pelo vinho de uma rúpia,
Sabores com carinho de mundana,
Prazer nos genitais como viagra
De dedo, ressuscito decaídos,
Vadia nessa cama se consagra
A deusa dos desejos concedidos.
Divina, pois, ao pobre que se suja
Ao preço de uma nítida ilusão,
Despejo mais um karma de lambuja
À carne que só age sem razão.
     Até que o Ser Eterno me comporte,
     Meu corpo foi promessa: para a morte!


***
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Infantofolia

 
Familiar to Unfamilar 5 film - in Deviantart

Agente Xis Ípsilon Zê

Agente que se esconde no seu peito,
Fracote, e destemido, que se envolve
Em riscos com sorriso e se resolve,
Pistola reluzente ao parapeito

Do décimo terceiro. O seu suspeito
Minúsculo no pátio desenvolve
Um plano que é de encontro, e lhe devolve
A fúria dos primórdios. Desrespeito.

Um trisco no gatilho. Sob a mira.
O oposto lhe pôs ódio, raiva, ira.
Com gosto, pois, explode-o. Considera

Perfeita a sua ação. A mãe repara,
Galhofa do pimpolho, que diz "Paaara!"...
Vontade de morrer que se apodera.


A despedida

Criança no meu peito de terceira
Idade, por que insiste em sobrevida?
Tem crença de que cócega à caveira
Dará a este senil a sacudida?
Criança que é sem pênis, sem vagina,
Nonsense de Inocência a toda prova,
Semente que serena a aguda angina,
Floresce como adorno uma dor nova.
Criança que me cansa, pois o quedo
Vovô não mais se aguenta e não segura
Xixi, choro, cocô; não é brinquedo
O túmulo de trevas que inaugura...
     Decrépito. Psicótico também.
     Criança, me abandone, por seu bem.


***
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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Estandarte serpentino

Saint George and the Dragon -  by Isabellas Art


Jogos de guerra

Ausculto das cortinas uma flor,
Oscila nos meus olhos de perfeito,
Bascula nas pestanas de um tal jeito
À fúria com que o arco freme a cor.

Reparo que, feliz desde o meu leito,
Destrinço do caminho o seu fulgor.
O lábaro que ostento para a dor
Primeiro tem demão que vem do peito.

Insólito de súbitos, me travo.
Meneios bem sutis na militância,
Exércitos de mel que há no teu favo.

Nos sonhos, para frente é sem distância;
Tomemos, pois, o rei por um escravo
A golpes de tontice pela infância.


Medieval

Minh'alma é a Princesa Desalento
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
                       Florbela Espanca

Do nada, fui forjado para forte;
Soldado, para ser um general;
Guerreiro, por azar e para a sorte,
Lutar pela Justiça Divinal.

A corte é sob as ordens de Mavorte,
Seus lábios, o Santíssimo Graal,
Comandam que eu me faça ainda mais forte,
Demandam a Desgraça que é do Mal.

Poeta e seu ginete Fantasia,
O fôlego de flama que há no vento
Alento lhes insufla. Mas se esfria...

A neve há de prover o vão sustento:
Meu corpo de poeta à Poesia;
Minh'alma à Princesinha Desalento.


***
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sábado, 13 de fevereiro de 2010

A filha & a filha

 
         Daughter of the Shadow - by EllieZ


ISO para Isa

Se é bucho de mineiro será uai.
Se é bucho de gaúcho será tchê.
Certinha, não duvida do que vê,
Sem síncope e sem sais, porque aos seus sai.

Isinha se parece mais com o pai...
A mãe não teve dúvida de que
Não foi naquele dia pequepê,
Com o pique pombagira "ducarai".

O cara nem pediu DNA,
Cuspida de escarrada como a vó
Paterna. Da família. Maravilha!

Tem nome e sobrenome do que há,
Em breve tem herança e, não é só,
Será certificada como filha.


A filha do pai

A filha adolescente está comigo.
Nem sente que eu a sinto com carinho,
Amor de consanguíneo, o meu umbigo,
A cara do papai, tudo, tudinho?

Será que se dá conta que consigo
Eu tenho sobrevida no caminho,
Que trilho rastejando por abrigo
No colo de Gautama? Pois, denguinho,

Menina já mulher, e criancinha;
Agora somos dois pelo destino
Contínuo, pelas trocas à vontade,

Segredos de família; já mocinha,
Calcinha e sutiã do cão latino,
Do mênstruo às camisinhas: a verdade.


*** Depois dessa, só mesmo escutando "Ashes to ashes", com o David Bowie... e
"Mulher, eu sei", com o Chico César... AMO!
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Das chuvas em Veneza

 
Rain in Venice - by  Ohbuddy

Toró

2010 diz que é recorde em plúvio.
Uma tragédia esse aguaceiro tanto.
A bússola é demente ao helianto,
Em busca sai, do Sol, pelo dilúvio.
E as frutas e as verduras e os legumes
Afogam-se no campo feito mar;
Quem planta não pretende reclamar,
Semeia novamente por um lume.
E a vida das pessoas tão humanas
Desmancha-se engelhada no penico,
Em ágata e ferrugem, como um tico,
Titica com xixi. Não há hosanas.
     Dos gritos ao silêncio, o mesmo coro.
     Acaso. Não é caso de mais choro.


AMBAV (Associação de Moradores do Bairro Veneza)

Aboio de sofás do lanterneiro,
Do frila, da vovó a dormitar -
Enquanto o seu pretinho foi catar
Latinhas e bagulhos por dinheiro.

São dez as prestações por liquidar
Os móveis no preju do Zé porteiro.
É chuva de europeu o mês inteiro.
Meu Deus, o que vai ser, no que vai dar?!

O barro que não dorme é bem à beira.
Um bairro só de laje e cumeeira.
Barquinhos de papel a naufragar...

Mas, antes, a velhinha no barreiro.
Mas, antes, o menino no bueiro.
Quem manda se ligar a esse lugar?!


***
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Três sonetinhos da Bretanha

 
Bretagne - par BZH2O


Três sonetinhos da Bretanha


À arte da vitimização

Sou vítima do pai, meu grande amor.
Sou vítima da mãe, foi invejosa.
Sou vítima de irmãos, ai, que temor!
Sou vítima de um céu sem cor-de-rosa.
Legítima na dor em mal me quer,
E querem mais um trisco, os idiotas,
Do bem que me domina, de um qualquer,
São todos exigindo suas cotas.
Seus toscos!, seus encostos!, seus zumbis!
Me picam por nadicas, pela troça,
E ficam tão felizes por um bis,
Um terno de tragédia casca-grossa.
     De quatro dispuseram-me em quitute.
     Aos quintos, seus glutões, por meu desfrute!


Desejos

Mulheres vitimizam-se ao desejo,
desejam, como vítimas da sorte,
que o golpe dos algozes, como vejo,
derrube-as ao abisso, para a morte

pequena, consentida com manejo.
Não vejo o tal desejo na consorte.
Reclama até da cama (percevejo?),
nem beijo, nem chamego, nenhum norte.

O alfanje é como um anjo para uma.
P'ra minha, nem se finge se eu cortá-la.
Pelejo, mas já sinto que se esfuma

meu sonho de agressor. Mais não se fala.
Perguntam se a desejo, ou que se suma?
Desejo, sem contudo desejá-la.


Hagiografia

Compor, a circunstância assim o exige,
No mínimo um soneto de Bretanha,
Um texto que mereça a quem se aflige
Com o látego nos ossos que se entranha.
Opor-se não se deve porque é erro,
É voto de seu clã de pecadores,
Martírio que lhes filtra por aterro
O pó de seu pretérito de horrores.
Espíritos se movem irrequietos
Ao ritmo de ritos ancestrais,
Pungindo mais e mais tataranetos,
Ou outros mais distantes, mais e mais...
     Eu sofro, mas suporto até o fim.
     Do clã, sei que sou vítima de mim.


*** Moacy Cirne publica-nos em nosso Balaio Vermelho.
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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Poética

Book - by Stoneface

Poética

- para a linguista Ingedore Grunfeld Villaça Koch

Poeta sonetista com pulsão,
Com pulso que ribomba, que bombeia,
Artista que se inscreve em coração
No sangue que lhe corre pelas veias.

Pergunta-se por quê, por qual função,
Medita nos seus versos, titubeia,
Hesita por um êxito da ação
Descrita com figuras a mancheias.

Serei o criador nesse fazer?
Não sinto que estou só, só de cerviz
E viço... Corrobora a condizer

Com o dito, colabora com a matriz,
Não cobra copyright, vou dizer:
Quem lê tem autoria no que fiz.


*** Para desinflar o ego do escritor e inflamar o ego do leitor. Mas, principalmente, para homenagear Koch, a honorável linguista, ou Inge, a "Dama do Texto".
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Teste

 
Japanese umbrella - by Yoshiko Black



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