sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Mônada

 
 


A Mônada

A Mônada desceu de tobogã,
em íris, para a porra de viver.
Que saco! Que cacete! Que manhã
de trevas! Que porvir, ver e vencer!

A Mônada evolui porque é pagã,
ai!, ui!, o seu dodói é o seu haver,
entanto sua pena em Canaã
promete-nos um deus humano ser.

Milênios de tortura para a glória
de um cristo ou avatar (pô! mó dífícil!)
na crista que redime purgatória.

Martírios com doçura por ofício,
mas der'um cambapé na trajetória
e A Mônada sambou no sacrifício.


***
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Do limo


No mud, no lotus - in  Reclusland

Do limo

Eu penso, carrossel não é hipismo,
Eu penso antes da cunha da Suméria.
Dispenso o vão consenso porque cismo,
Eu cismo pela azêmola da artéria.

Altíssimo faminto por abismo,
Direto para a fenda na matéria,
Mistério que é de dentro, cataclismo,
Um selo para a trama deletéria.

Abrindo-se no pântano, pungente,
Brotando para a seiva de meu imo,
A vida à superfície intransigente

Demonstra a mim o monstro que sublimo:
Se o fôlego na argila me faz gente,
Ascendo messiânico do limo.

 
MUD - in Merriam-Webster
1 : a slimy sticky mixture of solid material with a liquid and especially water; especially : soft wet earth

*** Plus des non-senses au @bardopimenta.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O musgo












 


Moss - by AlexEdg



O musgo

O musgo se delicia
de seu frescor
de mama de lagartixa
apoquenta o cinético da podridão
por um processo tão simples
quanto seria a fazedura de amanheceres.
O musgo delineia curvas
passeia abandonos
paradisia entulhos
transporta como transpõe
todos os obstáculos
para a gênese da gosma
contra a tecnologia do vir-a-ser niilista.
Ele matuta matuta
se apercebe casulo de gelatina
rejuvenesce o mineral
lhe estapeia a maioridade
com as mãos inefáveis de Deus Pai.
O musgo junge.
O musgo gera.

Esse musgo!...


Os musgos são representantes do grupo das briófitas e como tal são desprovidos de vasos de condução e tecidos. São constituídos por caulóides, rizóides e filóides. São plantas criptógamas, isto é, que possuem o órgão reprodutor escondido, ou que não possuem flores. Preferem viver em lugares úmidos (são dependentes da água para a reprodução, cuja fase dominante é a gametofítica) e com sombra (umbrófitas). Geralmente atingem poucos centímetros de altura justamente por não possuírem vasos de condução de seiva. (- in Wiki)

*** Obviamente, esse texto elegeu como sua mãe a poética de MB.

*** .atnemipodrab: rettiwT ne emriuges edeup detsu, aesed ol iS

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

teste

Dandelion... the last - in vi.sualize.us


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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Dois poemas (acho que) complementares

"Cada lector busca algo en el poema. Y no es insólito que lo encuentre: ya lo llevaba dentro." 
                                                                                                          Octavio Paz


Destino persecutório

E quem me persegue
Será que me alcança?
Quero que me cegue
Aos olhos a lança.

Lanceia também
O peito sem crença,
Os homens sem bem,
Seus bens e despensa.

Eu, negro judeu,
Branco muçulmano,
Nem mesmo por Deus
Seria hum... humano.



Fallen road - by  Rengim Mutevellioglu



Imóvel

Ao pensar por mim
Pensei que de incerto
Nada havia assim
E, portanto, perto.

Ao sentir-me em "in"
Senti que por certo
Entre não e sim
O portão, aberto.

Depois, então, fim.
Na hora do acerto,
Pouquinho de aperto,
Raiz de capim.


*** O camarada Sylvio Alencar nos divulga no seu blogue, o E, terna luz.
*** !oialaB on, zilef uotsE
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Teste

 
Kazuo Ohno - von Thomas Ammerpohl



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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Às pedras do templo

Almourol - by Fernando Batista


Às pedras do templo

Projeto-me à distância de um portal.
Desejo-te no cerne e em seus ramais.
Tu és uma sequência de vestal,
Real e de ideal, e és muito mais.

Protejo-me em teu colo terminal,
Em vestes de nudez e de jamais.
Ao vento de teu fôlego termal,
Atrevo-me a teu fogo por demais.

Bacante em excessivas circunstâncias,
Ingênua para vícios e malícias,
Ganindo pelas nuvens, uma a uma...

O Todo se apodera das distâncias
E põe abaixo o templo das delicias,
Mulher de uma aliança que se esfuma.


***
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domingo, 17 de janeiro de 2010

Haikustorm

 
Origami on the rocks - by Vesparia


Haikustorm



Chuva de domingo.
Eu vejo a imagem de Deus
em forma de pingo.

Rain on Sunday.
I see the image of God
shaped drop.

Aguaceiro forte.
Logo depois a secura
serve de consorte.

Há chuá no céu.
Vou construir uma arca,
barco de papel.

Foi sob o carvalho,
numa pétala de rosa
um pingo de orvalho.

C'est sous le chêne,
sur un pétale de rose
une goutte de rosée.

Um sim para mim,
o rocio no teu corpo
recende a jasmim.

A chuva não pensa,
despenca seus canivetes,
dispensa a despensa.

Soprando uma brisa,
o temporal diminui,
a chuva ameniza.

É chuva na telha
concerto para a largada
de breu e centelha.

Raios e trovões,
rápido saca-se a prece
para Santa Bárbara.

Não, ela não tece!
A teia em poucos minutos
na aranha acontece.

Dezoito formigas
sobre a baratinha morta:
banquete entre amigas.

Dix-huit fourmis
sur le cadavre d'une cafard:
fête des amis.

Optsprezece furnici
pe corpul unui gândac de bucătărie:
sărbătoarea de prieteni.

As flores se curvam
à beleza projetada,
e as águas se turvam.

se era há pouco ontem
hoje já é amanhã
meia-noite e um

Apenas a dor,
no varal não há mais roupas
nem um pregador.

Estes colibris...
e seus beijos... Por quem são?
Francisco de Assis.

Nem carece terço.
Para quem morre o caixão
é apenas um berço.

A lua caiu
de um epigrama clichê,
Bashô no Brasil.

Um haicai no trinco
tem que aprender a lição
cinco, sete, cinco.

Árvore no chão,
país de vida invisível
e nosso caixão.

Tree on the floor,
country of invisible life
and our coffin.

Mau humor cedinho,
termina quando o totó
abana o rabinho.

Nem um cafezinho...
Em frente ao fogão se humilha
um homem sozinho.

A grana declina,
no bolso do paletó
só naftalina.

Serve de consolo?
Todos os vermes possuem
brevê de voo solo.

De visão restrita,
na barraca de pastel,
borboleta frita.

Ladrão de galinhas
cometeu o crime às claras
e às gemas: algemas!

Preto, pobre, preso...
Dizer que a justiça cega
é justo e coeso.

Disso não me furto,
da vontade muito longa
ao desejo curto.

Manhã com pigarro:
o escapamento estragado
do primeiro carro.

Os pássaros loucos,
abrindo para o Porvir,
é show para poucos.

A que ri putana
não é a mesma ao espelho
de uma puritana?

Céus! O sol a pino!
Agrião, tomate, rúcula,
alface e pepino.

Heavens! The sun of noon!
Watercress, tomato, arugula,
lettuce and cucumber.

A gente se via
nos lençóis em desalinho
da cama vazia.

O monstro se espicha:
na floresta de ikebanas
uma lagartixa.


***
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Soneto dissonante


Soneto dissonante

A flor que não desejo é a que me viça.
Nenúfares se afogam por lazer.
Seus numes não prescindem de uma missa.
O fogo que mais queima a nos arder.
Segura de meu pânico, me atiça.
Encontra no meu flanco o seu poder.
Desfolha-me em outono como um Issa.
A dor impermanente hei de sofrer.
Preâmbulo de um sonho desvairado.
Premissa de uma ideia não conclusa.
Prefácio de uma bíblia sem temor.
Eu sou por seus desejos inspirado.
Eu sou pelas serpentes da Medusa.
Sou todo por você, por quê, amor?


*** 
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Cônego Diogo
















- in virtual memories


Cônego Diogo

O cônego Diogo não mantém
O meio em seus enleios de vigário,
Eu leio n’O Mulato que ele nem
Caráter propicia, bem contrário,

Se enreda sem escrúpulos a quem
Vai ser manipulado. O corolário:
Fantoches do diabo, que não vêem
Além do preconceito e seu glossário.

À pena, a dezenove das centúrias,
Bem pródiga a ciência e sua ascese,
Combina destemor com muito medo.

Diogo é bom exemplo das espúrias
Das gentes que perduram como tese
De Taine, Darwin, Comte, em Azevedo.


*** Cônego Diogo é vilão no livro O Mulato, de Aluísio Azevedo.

*** Moacy Cirne nos publica em seu (nosso) Balaio Porreta.
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domingo, 10 de janeiro de 2010

Teste

Bamboo - in Deviantart



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sábado, 9 de janeiro de 2010

Em nome da flor


flor p&b - by lppjunior


Em nome da flor

1.
A mônada centelha que se espatifou no Caos resolveu se ajambrar num terninho de carne e osso para sua sobrevivência amorosa.

2.
Que faz o silêncio todo de azul?!

3.
Eu penso e sinto a tua presença em cada vão que me preenche a alma, fazendo-me supor que sou um homem. Que não penso. Que não sinto. Que não, nada.

4.
É cada pedacinho de nanopartícula tão incompreensível quanto Deus.

5.
Tudo o que me leva a acreditar que as absurdidades são razoáveis se chama "flor". Ainda que não tenha existência comprovada pela Ciência e, por isso, não tenha sido divulgada pelas revistas científicas, eu creio na flor.



***
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Um pedido


 tranquility - by imba1


Um pedido

Ao Mestre é este pedido de quem sofre.
Ao Mestre, eu ofereço a minha dor.
Preciso de uma senha para o cofre
Que sou, por que as virtudes do Senhor,
Reclusas no meu peito de pequeno,
Desatem-se ao aberto do horizonte
Em vórtices de súbito e de pleno,
Transformem-se na força que há na fonte,
Que desça da colina como lume,
Que benza o vilarejo, sua gente,
Atice-lhes o bem, e não se esfume;
Felizes, pois, amém!, com o que se sente.
       Eu peço pelas flores que há na rama.
       Ao Mestre é este pedido de quem ama.


***
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Não é mete e goza! É mote e glosa!

Bier - by the Petya


MOTE
Tem gente que é da cachaça,
Mas eu prefiro cerveja.


GLOSA

I.
Na pinga não acho graça,
Embora de tradição,
Branquinha do coração.
Tem gente que é da cachaça,
Desce matando, mamguaça,
Que o membro viril lateja,
E a vista logo preteja,
Se arrisca feito um herói,
Diz que de bebo não dói;
Mas eu prefiro cerveja.

II.
Caboclo vai lá e traça,
Subindo pelas tabelas,
Sem saber se eles são elas,
Tem gente que é da cachaça
E sem a bicha não passa.
O bafo do cão bafeja,
Quem tá na frente "Mi beja!";
Às vezes pinta chupão,
Dependendo do dragão;
Mas eu prefiro cerveja.

III.
Responsável por desgraça,
Seu efeito é violento,
Não rola nem sentimento,
Tem gente que é da cachaça
E quanto mais, mais bagaça.
O vício conforme esteja,
O cara cai, e rasteja
Pela fogosa paixão.
Sei que tudo leva ao chão,
Mas eu prefiro cerveja.


***
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Um canto para amar

 Incense - by Comiic Book Cruush


Um canto para amar

Um canto para amar a senhorita,
que é cara ao meu apelo romanesco,
em oiro, diamante ou mesmo brita,
em pelo ou patrimônio pela UNESCO;

dum tempo que é de outrora e que me excita
à força na Romênia de Ceausescu,
que a fêmea que me empenha sua dita
projeta-me em porvires de arabesco;

hélas! não sei se lá ou de intermédio,
só sei que singraremos à conquista
suprema pelo gozo do sem senso;

amor no meu cantinho, que remédio!,
resume-se ao que sonho pela vista
no fumo que é da chama de um incenso.


***
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Epifania de uma fagulha


helix - in enten katsudatsu


Epifania de uma fagulha

- para o enten katsudatsu Cássio Amaral

       Nascida de uma partícula rarefeita de energia luminosa, rútilo-cintilante, difundiu-se sobre, resvalou de leve na Lua, atravessou todas as tramas incendiárias do Sol e... desaba! O dia floresce em chamas. O que se evidencia não sei. Urge, surge de repente, precipita-se pelas hostes do silêncio. Se é claridade, brilho, fulgor, esplandece-se luminar, em essências de incenso e candidez. E assim vamos espargir um pouco do lume das efemérides à flor das águas primeiras. E assim se evolui, na mística visão de quem ama pelos seus olhos de ardentia... Tudo flameja por existência rara. As fibras tênues de seu espírito são, portanto, desses filamentos de luz incandescente que se arrojam como uma coroa de lótus, envolvendo delicadamente o sahasrara do Mestre.


*** Cássio Amaral é um bom poeta universal e à margem desse rótulo aí que eu acabei de inventar. Com alguns livros publicados, sua coragem estética ainda dá voz ao instigante blogue enten katsudatsu. Eu recomendo!
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sábado, 2 de janeiro de 2010

A um jasmineiro


Jasmine - by Aaron Craven

A um jasmineiro

Ônibus, carros e motos
passam por ele, ignorantes
dele e do que produz.
E as bicicletas? O mesmo.
Discreto - como uma lesma
que rasteja por seus trilhos
de gosma - o vegetal
se abriga sob um outro Maior.
E é no meio da calçada,
lá no seu pique-esconde de meia tigela,
que o tímido jasmineiro
materniza aquela série
de trombetas-alvíssaras decaídas de sua seiva.
Divinas. Delicadinhas.
São chucras também. E como!
Os entes que não se ausentam da Beleza bem o sabem,
perfume forte e sutil
que inebria até abstêmios togados.
E os transeuntes menos egoístas,
pelo tato que há nos olhos,
são capazes do reclame:
jasmim.


*** A crítica literária Gerana Damulakis fala um pouco acerca da poesia na blogosfera e me publica em seu prestigioso blogue Leitora Crítica.

*** E eu já havia vaticinado no penúltimo post (mais risos!)...


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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Felicidade


in  - we heart it


Felicidade

Eu não posso ser inocente nem inocentado
pelo seu colo de luz.

Eu me intrometo por estranhas simetrias
nas curvas desconexas
de sua luxúria.

Vou dos haveres de Deus
às franjas do Nada
num só
coice.

Ai.


*** A crítica literária Gerana Damulakis fala um pouco acerca da poesia na blogosfera e me publica em seu prestigioso blogue Leitora Crítica.

*** Eu já havia vaticinado no post anterior (risos!)...


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