terça-feira, 22 de abril de 2014

Paina



Paina

Por paina, por um ah, por um suspiro,
se mata por um cisco, por um nada.
A morte por tão pouco, dá-se um tiro;
ou vai-se de arma branca, uma facada;

uma injeção letal, feito um vampiro,
vampiro que inocula a definhada
poção para abismar-se no retiro
do Cão. Uma paixão disseminada

no morro carioca, no galpão
gaúcho, na Finlândia, Palestina,
nas praias de Macau, qualquer grotão,

por breve sensação, por, por, enfim,
por nada, por nadica, a medicina
avessa, que não cura, não tem fim.

*** 
Share |

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Hábito de pele








Hábito de pele


Não quero me salvar, sem condição.
Sou pecador de carteirinha, fim.
Mas posso, se quiser de coração, 
pedir por sua pele de marfim.

Depois do que fizermos, em ação
de graças, sacrifico o meu carmim
nas franjas da inocência… Comoção...
E mando uma oração, mas não por mim...

Eu peço por você, porque merece,
merece do Papai da minha prece,
da sã jaculatória do lodeiro.

Transforma-se o pedido pelo ser
na lótus que começa a florescer
em hábito de pele de cordeiro.

*** img - www.mecd.gob.es
Share |

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Fala de doutor




Fala de doutor

A fala do doutor não me convence;
do mestre nem escuto, não merece;
a sua, que se cale, não me estresse;
a fala é pantomima de circense.

Só falam do que sabem, mas não pense
que sabem do que falam, só parece,
repetem um saber que não se esquece,
repetem e repetem seu pertence.

É tudo ladainha, pandemia
do mesmo, da mesmice, que premia
o plágio de um papel já desbotado.

A fala do doutor foi excelente...
Assim que se calou, ficou silente:
"Mantenha-se, por Cristo, nesse estado!"

*** Img Brain Ring - in http://www.pinznthingz.com
Share |

terça-feira, 1 de abril de 2014

Ao perdão


Ao perdão


Eu peco por perdão, não por descrença,
que sei do azul-celeste que me espera.
Depois da perdição, não se dispensa
um pouco de delonga na quimera.

Eu peço meu perdão, minha sentença,
que eu seja liberado da cratera,
que eu seja liberado da detença,
que eu seja possuído pela mera

vivência de cristão. Se perdoado,
prometo só pecar pelo pecado
e nunca mais pecar pelo perdão.

Espero, requerente arrependido,
o sim do deferente no pedido,
um lote para mim na vastidão.

*** Img GM.
Share |

sábado, 22 de março de 2014

À nova estação



À nova estação

Se penso na felicidade, penso
por que sou tão feliz. Como resposta,
apenas o teu rosto vem ao senso,
que tudo se resolve em quem se gosta.
Assim como o sorriso tem no alvor
a chave para abrir o inusitado,
em ti há a residência para o amor
viver a infinitude em seu estado
de sim, a fim do que vier. Não paro,
meu pesamento permanece puro,
na folga da ciência em que preparo
meus gestos de ternura para o duro
     momento desbotado, como sono
     sem sonho, primavera por outono.

*** Img - in hyperionherbs.
Share |

segunda-feira, 10 de março de 2014

Anjinho




Anjinho

Eu sonho sobre as nuvens com que anjo
se estou num avião na mesma rota
de volta para a terra do marmanjo,
das coisas triviais, do que me embota?

É cinzas, quarta-feira, não me arranjo
em meio ao que destrói, ao que derrota,
ao pó que me arruína, já não manjo
mais nada do caminho nem da cota.

Um anjo me sorri, mas é trevosa,
omite-se de sol e de alegria,
aos ventos que precedem a afasia.

Não tenho o que fazer se está nervosa,
com gana me conduz ao que recria
o pânico, o terror, a fantasia.

*** Img - diz-que apareceu em Dr. Who. 
Share |

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Fio de espada


Fio de espada

          "Correr da espada o sangue do vencido." - António Dinis da Cruz e Silva

Rendido pelas armas, condenado.
Ao cabo de estratégias da nação
nociva para sorte, sou azado
ao campo de batalhas. Solidão.

Até que fui, enfim, desenganado
da grave e poderosa presunção,
supondo que restava ser cruzado.
Depressa menoscabo o galardão.

Malhado pelas carnes, ossatura,
perdido no terreno, decidido
ao fim do que blasfema, que perjura,

descido ao desalento, definido,
definho-me à divisa da ventura:
"Correr da espada o sangue do vencido."

*** António Dinis da Cruz e Silva (* Lisboa, 4 de julho de 1731 – † Rio de Janeiro, 5 de outubro de 1799) é um poeta português do século XVIII, foi magistrado de profissão e fundador da Arcádia Lusitana em 1756. (Wikipedia)
*** Img - Jacques DeMolay.

Share |

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Animal





Animal

É como de surpresa. De que esfera?
De nêspera, de pêssego, de fruta
não é, e nem de flor, porque é de fera,
que estruge pela selva, por disputa.

É bicho de furor, que não tolera
um outro que o requeira para luta.
Não tenho por escolha, por espera,
se quero o meu modelo na conduta.

Instintos de combate suicida,
armados e, porém, desprevenidos.
Instintos de duelo, na mordida,

no lanho, que sangramos contraídos.
Os golpes consagramos para a vida
da audácia, pervertida nos sentidos.

*** Img in fanpop
Share |

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Mil maneiras de maneirar



Mil maneiras de maneirar

Bebia, dava azia, me azarei
com prescrições medicinais, não posso
nem mais a caipirinha. Como eu hei
de ser e de viver, se não me adoço

com doses de regalos? Viverei?
Serei mui comportado, mui insosso,
à falta de um gargalo de não sei
que seja, mas etílico, do poço.

Não posso me foder dessa maneira;
prometo maneirar ao meu hepático,
tomar um digestivo, da zoeira

me pôr mais à distância, sorumbático.
Não quero de noitinha, sexta-feira,
porém, a coca-cola de antipático.

*** Img in http://www.receitadecaipirinha.com.br/
Share |

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Acerca de um tema clássico



Acerca de um tema clássico


Nem Deus se me dissesse o que eu quisesse
ouvir, ou escutar, ou ter o senso
de fingir-me de velho que adormece,
de meigo vovozinho já propenso

ao fim, sem recompensas pela prece,
nem cinza, nem borralho, nem incenso,
nem nada de nadicas… Emudece,
que tudo se resume ao que é descenso. 

Floradas em coroas nos tripés,
as rosas murchecidas, palidez
em plena primavera sem hemácia. 

Saibamos escutar pelo viés 
da crença no desejo português 
as falas do silêncio na falácia.


*** Img - El Rey D. Sebastião.


Share |

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

À cobiça




À cobiça

Decerto que desejo, que cobiço,
que é bela, que é perfeita para mim,
que cabe no meu colo de mestiço,
que é branca feito cera, feito fim.

Desejo de cuidar, de compromisso,
de escravo corajoso, bem assim:
joelhos para a santa do catiço,
negrume que se encanta a seu marfim.

Cobiça por ingênua feiticeira,
por gelo que chamusca, que repele
apelos ao que quero, que me queira.

Querendo, distancio-me, que expele
seu fogo a frialdade de uma freira,
irmã de meu amor, na minha pele.

*** Img - detalhe de "Êxtase de Santa Teresa", de Bernini.
Share |

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Maldição




Maldição

Difícil convencer-se pela guerra
no campo do sensível, porque falha.
A fala não convence, porque erra.
Retórica por menos de uma palha.

O trato das palavras é o que berra
no sangue envenenado da canalha.
Torneio de argumentos que se encerra
em forma de serpente que chocalha.
 
Assim, não se convence para a paz.
Assim, não se convence, se é traído.
Assim, não se convence, porque jaz

o senso do sentir e do sentido.
Somente no silêncio se desfaz
a trama serpentina do mal dito.

*** Img in tumblr
Share |

domingo, 26 de janeiro de 2014

Val


Val

A noite será longa pra caralho...
Foi paga uma quinzena à peãozada:
cansados dos suores do trabalho,
direto para o bar e, mulherada.

Valdete não se cansa de seu malho,
buceta, até punheta se há brochada,
cuzinho, missionário, se o paspalho
lhe paga, chupetinha, presepada...

São rolas gigantescas de bebuns,
não querem solidão, mas que se bote
os bofes para fora por alguns

reais, o contratado no pacote.
Depois de vários bodes e boduns,
de dadas e gozadas, ao filhote.

*** Img in http://freespace.virgin.net/

Share |

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O caso




O caso

Orquídea de presente na lixeira.
Garrafa de champanhe na cozinha,
tampada, nem mexida. Foi à feira.
Voltou de mãos vazias. A vizinha,

não via por semanas. O que cheira,
um quê que vem de lá! Mas se nem tinha
cachorro... Que será? Na sexta-feira,
desculpa de fofoca, à campainha...

Ninguém lhe foi à porta. Desconfia.
Tragédia com certeza, mais um caso
daqueles. É por certo o que seria.

Esquece-se do fim, de não ter vaso
dos chiques para a orquídea nesse dia.
Digita um, nove, zero, com atraso...

*** Img by Alexandra Ortegon
Share |

domingo, 19 de janeiro de 2014

À genealogia


À genealogia

A crônica familiar se enrica
se Henrique e Elizabete, no seu dia
de bodas, revolverem de folia
os casos do passado, com titica.

Se lembrarão de algum parente que ia
casar, e desistiu, porque deu zica,
o macho que gostava mais de pica,
a fêmea que buceta só lambia.

A vã genealogia, pela face,
revela uma família bem tantã:
as tias mal-amadas sem enlace,

a vó com suas crenças de xamã,
um primo, prostituto de alta classe,
e prima nos cafés de Amsterdã.

*** Img by http://cdm.reed.edu/
Share |

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Filhos eternais



Filhos eternais

Nos filhos eternais, pelo que for,
nos filhos eternais, pelo que são,
há força, movimento, destemor,
virtudes que os inspiram para a ação.

Há Cristo, o principal motivador,
exemplo que doutrina, condição
sine qua non para se agir, amor
de irmão - que se doou de coração.

Por isso que as crianças sem limite
demitem-se do breve território
do pó das ilusões e, com razão,

no chão que lhes detona a dinamite,
permitem-se infinitos ao notório:
com Deus, sobreviver à confusão.

*** Diz-se que (excesso de) rimas em "ão" denotam que o poeta não é tão bão.
*** Img http://thegraphicsfairy.com

Share |

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Aos cristãos



Aos cristãos

Cobertos com pelancas de animais,
rasgados pelos cães... e... pereceram...
Cristãos que já se foram, que não mais
nos lembram seu martírio, ou se viveram.

Serviram-se de heróis para que a paz
reinasse pela cruz por que morreram.
Na comunhão da missa, que não jaz,
aos olhos da Mãezinha, renasceram.

Em sã fraternidade, com Jesus,
apenas há virtudes, não há crime!
Sejamos, pois, louvados, porque é jus

e justo que haja a Vida, que redime!
Amemo-nos, em paz, à sua Luz,
brilhemos como estrelas do Sublime!

Share |

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Amor bestial



Amor bestial

Se amar for armação de seu amante,
em busca de prazeres sensuais,
ou golpe do destino, de ir adiante
nas coisas de mistérios e de mais.

No caso masculino, não distante
do caso feminino com seus ais,
se amar for ilusão, tão semelhante
ao verso... São parelha de animais.

À fêmea nada resta, vai restar
na mão de quem lhe trata no capricho,
é besta de tração, não mais que bicho.

Ao macho, se souber como pastar,
se farte à ferradura da dadora,
ou ame e seja amante da amadora.

*** Há um quê de machista?
*** Img: estadao.
Share |

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Soneto para Zeca Baleiro



Soneto para Zeca Baleiro

O Zeca maranhense, brasileiro,
cantor, compositor, que celestia,
impõe-se com seu ritmo, seu braseiro,
põe fogo no salão da fantasia.

Poeta popular, esse Baleiro
destaca-se do mainstream, que fatia,
mistura seus temperos de banzeiro,
faz rango original... uma ambrosia...

As músicas não param de brotar,
a fonte não se esgota nesse cabra,
inunda de emoção por que se abra

com gosto o coração, para cantar
a vida, a pequenez e seu excesso,
com força de ribombo de sucesso.

*** Depois de saber que até o Eli Celso gosta de Zeca Baleiro, não teve jeito, tive que homenagear o cara, artista muito acima da média.
*** Img: AC Produções Fotográficas.
*** Site oficial do cabra: aqui.

Share |

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Temporal


Temporal

Inverno do cacete nos Estados
Unidos e um calor no nosso mapa.
O clima não tem rédeas, e os coitados
se virem como podem nessa etapa.

Inferno glacial, desesperados
ianques vem sofrendo. Quem escapa?
E os pobres brasileiros, requentados,
suando, vão ao bispo, ou vão ao papa?

Requeira a previsão ao seu pajé,
no mais não tenha medo, tenha fé
e os olhos no termômetro sem eira.

Nem gênesis nem fim, esse banzé
parece mesmo praga, mas não é,
é coisa casual, bem corriqueira.

*** Img: River Hudson by pix11.com.
Share |