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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

"De qualquer maneira" - Noel Rosa # 66

 by Tonho

“De qualquer maneira” - Noel Rosa # 66

Faz hoje um mês que fui naquele morro,
dali da ribanceira, que maltrato,
Juju me viu e me pediu socorro,
surrada foi sem dó por seu mulato.

Dei jeito na mulata, no seu forro,
livrei de seu problema, do boato,
promessa fiz à Santa que recorro,
pedi que não morresse pelo fato.

A bela num instante contemplada,
sambava já sem dor, tava curada,
sorrindo para mim. Com muita pressa,

eu fui à Penha de qualquer maneira,
que a Santa aqui não é de brincadeira,
cumprir a minha parte na promessa.

*** Ao Rio de Noel.
*** Mais um soneto da minha série de plágios.
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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

“Escola de malandro” (2) - Noel Rosa #52



“Escola de malandro” (2) - Noel Rosa #52

Escola de malandro é fingimento,
fingir saber amar. Nem se percebe
que mente, que prefere o sentimento
mentido, que prefere esse da plebe,

prefere o sem vintém, o sem porcento,
prefere o que lhe fere quando bebe,
ferida mas feliz por seu assento
no colo da ilusão. Que se amancebe,

não perca um só segundo do malandro,
mulher, e vá provar do seu meandro,
do bar, do cabaré do seu safado,

melhor do que morrer daquele enfado
do bardo Vladimir, que foi da crista
a suicida cubo-futurista.

*** Juntamos Rosa e Silva a Maiakovski (foto), deu nisso aí em cima.
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terça-feira, 23 de agosto de 2011

"Arranjei um fraseado" - Noel Rosa #15


"Arranjei um fraseado" - #15

Ações da cor, pelo licor de anis:
seus olhos de anilina, com requinte,
o que me requisitam, que lhes pinte
certezas, se duvidam feminis?

Amor, que me diria, não me diz?
Dissesse para agrado do pedinte,
que pede perguntando; conseguinte,
sonhando com as respostas aos ardis.

Indago do gogó de um descarado,
responda ao que já trago decorado
de cor e coração, sem demorar,

a esse xis: “Como é que você se chama?”,
e me diz: “Quando é que você me ama?”,
diz aí: “Onde é que vamos morar?”

*** Sobre samba de Noel Rosa.
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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

“Na esquina da vida” - Noel Rosa #14


“Na esquina da vida”

Subia para além do que eu podia.
Daqui me desaponto, do meu ponto
na esquina, pequenino, miopia
de pinto que não pia. Não desponto.

Mais alto!, mais além!, e se escondia
no sol das ilusões, no contraponto
da Luz e da Verdade, ao meio-dia,
em época de estio, como um tonto,

defronte seus alumbres de valor.
Tantã se deslumbrou e se envereda
de bico, principia sua queda...

É menos que um cometa, sem calor,
comento porque assisto-lhe a descida
do meu ponto, na esquina dessa vida.

*** Imagem, o meninote Noel, com seis aninhos.
*** A ccmposição é de Noel Rosa e Francisco de Queirós (1933).
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domingo, 14 de agosto de 2011

"Cansei de pedir" - Noel Rosa #13



"Cansei de pedir"

Suplício, o meu pedido de deixar,
amor. Não me deixou, não compreende,
não quer compreender. Ao despachar
você do que não sinto, não me entende?,

pretendo correção; não vai achar
que tendo o que não tenho vou, além de
sofrer, pelo prazer me rebaixar.
Nem pense isso de mim, que se arrepende!

Eu peço que se afaste, porque é fim.
Aceite que acabou, que é para mim
difícil se lhe disse "eternidade".

Perdoe, por favor, este perdido,
mas cumpra, se puder, o meu pedido.
É fácil, se me ama de verdade.

*** Mais um diálogo com uma composição de Noel.
*** Foto: Noel e Lindaura.
*** Dica: escute na voz de Aracy de Almeida.
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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Éis - Noel Rosa #10


Éis

A dupla no papel, por que seria,
não fosse para ser o que nos toca?
Batuques, violões, a poesia
do morro para baixo desemboca,

com gente bem normal e boemia,
encontros de cultura pela troca,
Noel com Ismael na parceria
compõem o bom do samba carioca.

Da Philips ao nome Nacional,
a rádio dos melhores que se tinha
rendia o ganha-pão e a Cascatinha,

de-réis que faz da cama bacanal,
a fama por um tempo que se finda.
Não finda para a dupla, não, ainda...

***A parceria de Ismael Silva (acima) com Noel Rosa rendeu dezoito composições.
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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

"Vai haver barulho no chatô" - Noel Rosa #9



"Vai haver barulho no chatô"

Morena, que é por ora majestade,
de empenho no penar, que fez contato,
com base numa Penha, por meu ato,
cansada de apanhar, c'otoridade.

A chata, por engano ou por vontade,
não digo sacanagem, com recato,
levou lá na delega, que eu acato,
a queixa criminosa, a crueldade.

Por causa de uma coisa assim pequena,
minúscula, de nada, de nadicas,
pecado do meu peito, vou às picas?

Eu juro, pelas grades, à morena,
prometo, nunca mais, só no caô,
que vai haver barulho no chatô.

*** O título destaca parceria de Noel Rosa com Walfrido Silva.
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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

"Felicidade" - Noel Rosa #5


"Felicidade"

Embora com você, eu sou sozinho...
No peito descoberto, uma lacuna,
silêncio, solidão que se afortuna
de vagas abissais... O cavaquinho

solando no sigilo da tribuna;
ao fundo o violão, no pianinho;
nem música resiste ao que é de espinho,
à rosa de Noel inoportuna.

Os vícios da bebida, do baralho,
barangas que me tiram do trabalho,
baganas que me botam anormal,

florescem pelas vagas, sem marulho,
jardim da perdição, onde mergulho,
em busca de uma dita que é do mal.


*** Dialogamos com "Felicidade", de Noel Rosa e Renê Bittencourt. Caso deseje, no tubo há a interpretação na voz do Rosa.
*** Continuamos a saga noelina - "Último Desejo" - Noel Rosa #¨6 - no Poema Dia.
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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

"Eu sei sofrer" - Noel Rosa #4



"Eu sei sofrer"

A fórceps, na dor, queixo caído,
às pressas, é nascido no Brasil,
sambista de primeira, bem provido:
alcoólatra, amador do mulherio.

Compondo uma bagunça a todo ouvido,
marfim ou pixaim no mesmo fio,
artífice do fim que lhe é devido,
inquieto polemista por perfil,

pergunta se sofreram, curioso,
assim como sofreu, licencioso,
falido na medula da moléstia.

Quem é que já sofreu, e é venturoso,
daquele sofrimento prazeroso
que a gente dissimula por modéstia?


*** Dialogamos com "Eu sei sofrer", composição de Noel Rosa e Vadico. Em interpretação única e perfeita de Aracy de Almeida, aqui.
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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

"Com que roupa" - Noel Rosa #3




"Com que roupa"

Que roupa poderia me caber?
Não há nem um cabide em meu armário,
um trapo que existisse, bem sumário,
contanto que cobrisse, por não ver.

Pergunto porque quero, pois, beber,
compor mais um sambinha... Que primário:
não primo pelo visto, vestuário!
Repito o com que roupa, sem haver...

Desisto do barzinho e da cachaça?
Malandro que do fígado se poupa,
seu samba de sucesso já fracassa,

descasca-se a banana e não há polpa.
Nem mesmo um fio dental sobre a carcaça,
pergunto a quem me diga, com que roupa?


*** Para escutar "Com que roupa", de Noel Rosa, na interpretação de Rosinha de Valença, aqui.
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Noel Rosa #1 e #2



As trancinhas do Noel

Noel, o picilone teve volta,
o outrora não é mais ultrapassado,
o povo não se aguenta, mas revolta
que é bom... Dona Dolores, é engraçado,

estuda novamente, não se solta,
e todo professor, que é de bom grado,
indica a tira-dúvidas envolta
num sol sapientíssimo, regrado.

Yvone liberou-se de seu karma,
desenha o picilone e faz alarma,
que a letra há de causar boa impressão.

Waldick, seu marido, na patranha,
filia-se aos filólogos, que ganha
da nova ortografia correção.

(Aqui dialogamos com "Picilone".)




Venereção a Rosa
  Conversa de botequim - (Noel Rosa e Vadico)

Garçom, faça o favor de me trazer
depressa uma cerveja, porque eu quero
provar com amargor esse prazer,
as tristes melodias que venero...
Os sambas de Noel, a fantasia
real do carioca, sua meiga
maneira acidulante sem azia,
o pão da poesia com manteiga
à beça. Na cabeça, no peito,
na mansa rebeldia, no seu truque,
além do centenário e do respeito,
ribombam suas letras, seu batuque.
     A fórceps, sem queixo, voz macia,
     venero o que o malandro pronuncia.
 
(Aqui dialogamos com "Conversa de botequim", "Feitio de oração", "Provei", "Não tem tradução"... )
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