sexta-feira, 5 de julho de 2024

CRIANÇAS DA MUVUCA 1

 


CRIANÇAS DA MUVUCA 1

 

Crianças vêm ao mundo para quê,

crianças vêm parar e se perder

no meio da muvuca, vêm arder

que nem aquelas coisas no dendê.

 

É nesse paradeiro que se vê

o logro das crianças, a entreter

a todos os demais, a derreter

o gelo que há no peito do clichê.

 

Crianças valem bronze, valem prata,

algumas de exceção merecem ouro,

na bolsa de valor do de gravata.

 

Crianças, com seu quê de quantidade,

encontram nesse mundo o logradouro

perfeito por viver o vão que evade.

 

CG – 04/07/24

Share |

sexta-feira, 28 de junho de 2024

REFRIGERANTE DE FASCISTA

 



REFRIGERANTE DE FASCISTA

 

As células do feto, que doçura!,

descendo do gargalo feito gozo,

um gozo de betume que mistura

saberes e sabores de enojoso.

 

Quem domina a receita da fissura?

Talvez um alquimista perigoso,

guardando seu segredo e sua jura

no cofre do Demônio, o prestimoso.

 

Ponte para a atitude, desabafa,

quem bebe refestela-se mais, mega,

sentindo-se num surto surreal.

 

Fonte da juventude na garrafa,

o fogo que há no inferno não denega

dos goles na bebida angelical.

 

CG – 28/06/24

 

#soneto


Share |

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

DURA LIÇÃO, RENATO SUTTANA



DURA LIÇÃO


Não é a primeira vez que leio um livro de Renato Suttana e quase que automaticamente o meu espírito percebe algo de lusitano em sua poética. Para me ater apenas às sensações e aos sentidos de “Dura lição”, os poemas são curtos e vazados em redondilhas, remetendo às cantigas óbvias, tanto as medievalescas quanto as outras que minaram a literatura portuguesa – e continuam em “ando”, minando, dominando –, embora o ritmo demarcado pelo poeta em pauta responda mais ao diapasão cerebrino, deixando o diapasão cardíaco em segundo plano; há, ainda, em termos formais, os sonetos, seguindo o modelo tradicional, português. Acerca do feudo temático, assim como dos seus subtemas, é reduzido à viagem, à busca, à alteridade e ao desamparo, ao modo da pátria de Camões, que, por suas qualidades navegadora e expansora, abusou, com primazia, desse material. Em suma, talvez eu queira afirmar que Suttana seja um poeta esquisito, um misto de português e brasileiro. E, mais, um poeta atual, e das antigas.


Em meio a suas esquisitices, compõe textos com teor lapidar, de lápide mesmo, de inscrições em túmulos, a serem lidas com contrição. Mas os seus textos não remetem a lágrimas ordinárias de rosto entristecido. Remetem a questões existenciais de ordem filosófica e/ou religiosa, questões que não se resolvem, por vezes, nem em vida nem em morte, tornando-se, assim, questões eternas, insolúveis. No segundo poema do livro, “Não tenho”, a linha-mestra é lançada: “Não tenho força para o erro, / nem a pretensão do acerto”. O que pode, em início de percurso, um sujeito lírico desfalecido? Creio que esse desfalecimento seja tão humano, mas tão humano, que o sujeito com sua lira minguada irmana-se a seus leitores. Assim é que a literatura trabalha, nem errando, por força, nem acertando, por pretensão, mas humanizando a existência, irmanando-se a seus partícipes: leitores, vozes, discursos, ideias, sentimentos, silêncios etc. O bacana de tudo isso é que a falibilidade no campo das certezas transfigura-se fácil, quando o urdimento da poiésis adquire forma por meio de um estilo bem composto, em êxito literário. Esse é o caso de “Dura lição”.


Dentre alguns símbolos recorrentes, destaca-se o vento. O vento amplia seu espectro como ar, brisa, veículo de navegação, veículo de voz, e sugere um rumo, e promove uma rota, mas não há segurança para que alguém se sinta apto a uma viagem, seja para terras estrangeiras, seja para a intimidade estranha de si mesmo. A busca permanece em suspense, paralítica, sob domínio da dúvida. O ser humano hesita no que lhe é ancestral, o desejo de ir além do comezinho, arriscar-se, sujeitar-se à ventura. Nesse ponto, com a motivação do deslocamento de ar, em que o movimento deveria ser o foco de tudo, em que o eu lírico deveria ser um aspirante à travessia, movimento e eu lírico desfalecem, optando apenas pela memória em forma de mesmice e pelo porvir em forma de fantasia. Embora não se enlacem nas malhas da ilusão, recebem instantaneamente os golpes da desilusão. E a vida segue, estática.


Mas o repouso do que se se rejeitou e, de pronto, foi rejeitado é um repouso ativo, porque o vento persiste, porque as viagens latejam em potência, porque os seres humanos não se contentam com o universo perceptível aos cinco sentidos. A persona poética de Renato Suttana lança a “pergunta / que no escuro se perdia”, lança muitas perguntas a pessoas, a si, à natureza, e recebe como resposta “sílabas de brisa / que nada diziam”. O que se tem na aparência, é o homem, só, pesquisando, desamparado. Sempre no limite, bem representado por outro símbolo rotineiro, a porta, uma porta que nunca se abre, ou, no máximo, está aberta a trevas. A voz nos poemas não tem força nem habilidade suficiente para clamar pelo outro (clama, contudo), para cantar o outro (canta, contudo), restando em solidão de ânsias e de angústias, no “excêntrico dos momentos”. A dúvida sem resposta é a solução do problema?


A vida vem pelo ar. Os vírus vêm pelo ar. A parceria da vida com a morte e a necessidade premente que o eu tem do outro causam um rebuliço psíquico no mundo de hoje. Certas situações dramáticas, e até mesmo trágicas, como a atual pandemia, por exemplo, desmascaram o que há de pior na civilização. Os egos apresentam seus horrores. E, claro, em diversos momentos os egos horrorosos se fazem presentes com essa configuração selvática. Penso que até para nós entendermos, ao menos em parte, o aqui cruel e o agora medonho, o livro de Suttana pode nos socorrer. Em várias instâncias, há um ser à porta do outro, há um ser em busca do outro, há um ser que necessita do outro: esse outro de carne e osso, independente de sexo, ou principalmente sexual; um amor, talvez; talvez, Deus. Mas o outro nunca atende ao chamado. A porta é limite e limiar. A porta é trevas, a porta é silêncio, é corta-vento, é fim de viagem, é fim de busca, é fim de alteridade.


Enfim, “Dura lição” trata-se de uma aprendizagem melancólica das incertezas, trata-se de uma aprendizagem singular acerca de alguns dos quês capitais da Humanidade, compartilhada por meio de uma eloquência contestável, mas, de um formato fatal, poemas de estética irrepreensível. Um livro labiríntico, pleno de arbitrários paradoxos, permitindo-nos entender que o fim é apenas o início do caminho e que devemos, portanto, permanecer na jornada, graves, enquanto o fôlego suportar. Sim, devemos ir: “E ir assim, todo ardimento, / num engano formidando / que se chama a vida inteira.”



Um soneto de "Dura lição"

Como também me perco suavemente 
a cada tentativa e a cada passo 
e me afundo num lúcido cansaço 
de tudo quanto o mundo vário mente; 

e não sei de argumento pertinente 
para explicar o gesto que não faço 
e a inércia que me leva, inane e lasso, 
até o centro do dia indiferente; 

como também me faltam as razões 
e sobretudo a bússola e o sextante 
e o mapa e um horizonte, a cada instante. 

(Vou só, num retrocesso, entre monções, 
calmo entanto da rota que desdenho: 
da visão que não move meu empenho.) 


*** "Dura lição" foi um dos ganhadores do Prêmio Leia MS 2020. 
*** Interessados em adquirir o livro, favor entrar em contato com o autor.
Share |

domingo, 26 de dezembro de 2021

A LEITURA DE ISLOANY MACHADO

 

Ei, Henrique!

 

Eu estou com seu livro em mãos desde março e só agora consegui sentar para ler, nesse pequeno arremedo de férias. Andei ocupada demais psicanalisando, que é o mesmo que dizer: testemunhando ativamente as eviscerações verbais de pessoas que se propõem a uma análise, que é o mesmo que dizer: escrevem sem caneta, teria dito Lacan. Você colocou as vísceras no papel. As suas? Nunca saberemos. Mesmo que Freud tenha dito, embasbacado, que os escritores conseguem (não se sabe exatamente como) dar um tratamento estético às suas fantasias infantis para que se tornem suficientemente tragáveis à leitura do outro, qualquer coisa que vá para o papel já não é a coisa original, mesmo em textos biográficos. Aquela coisa toda de que a realidade é psíquica etc. e tal.

 

Se tem algo em comum entre a psicanálise e a literatura é que ambas são (ao menos deveriam ser) feitas da mesma matéria: aquilo que há de mais humano. Digo o humano em sua forma bruta, quando vem ao mundo e precisa entender o que está acontecendo. Mas por que, diabos, eu não posso matar esse outro que me causa tanto ódio?, ou aquele que não atende minhas demandas na hora que eu bem entendo?, ou aquele, ainda, com quem tenho de dividir algo que eu não gostaria? Não à toa Freud se referia às crianças como “pequenos perversos polimorfos”. A civilização, com seu empuxo à culpabilização dos sujeitos e ao esmagamento das pulsões, cria, dentre outras coisas (as enfermidades psíquicas, por exemplo), os discursos massivos, a assepsia das manifestações, inclusive literárias.

 

Henrique, o que você faz neste livro é pegar as vísceras do humano, expor, investigar com lente de aumento. Porque é preciso mostrar às pessoas que quando tentamos esconder algo de nós mesmos, essa coisa volta com ainda mais força. Imagine se um sujeito decidisse procurar análise para fazer um discurso elaborado do quanto conseguiu esmagar bem suas pulsões? Não funciona! Nem na análise, nem na literatura e nem numa vida que passe ao largo dessas duas coisas. Se alguém chega numa análise é porque já tentou tudo o que podia para parecer que está tudo bem limpinho, nenhum crime cometido, nenhum resquício de sangue na cena, como jogar “o celular com força no chão, tentando espatifar os meus crimes”. Besteira! Se a literatura serve para alguma coisa é para entendermos que humanos somos assim, sujos, fedorentos, depravados, odiosos. Você mostra isso com o mais fino da ironia, dei muitas risadas. Quando a gente ri da desgraça (azul, que seja) é porque o trabalho de sublimação funcionou, porque o leitor aliviou suas tensões e depois pode fechar o livro e voltar a viver “civilizadamente”.

 

Gostei muito do estilo da escrita, das frases curtas, orais: “Engulo o tarja”. Admiro a coragem de não ceder ao discurso massivo do politicamente correto: “Inteligente, a cachorra”. Anotei várias passagens com as quais me identifiquei. Eu também odeio motos e sempre que uma passa berrando pela avenida em frente ao meu apartamento, desejo em voz alta que o piloto caia e se rale todo, e se rale muito. Claro que eu chamaria o socorro, porque ainda sou civilizada e aprendi bem o amor cristão ao próximo, mas que desejo, desejo. Tem um livro do João Tordo que estou lendo pingado em que o narrador diz: “desejei aquilo que um pai nunca deveria desejar – que o dia seguinte chegasse depressa, o dia em que a mãe viria buscá-la e eu não teria de a ver durante uma semana. Tornara-se um caso difícil na minha vida”.

 

Alguém poderia dizer “ah, mas é um homem que escreveu isso”. Para tanto respondo com a escrita de uma mulher, Inês Pedrosa: “não sei se será sensato pôr as culpas todas nos homens, querida Natália, porque talvez faça falta à libertação total de que vocês andam a tratar essa capacidade de amar a celulite, as lágrimas, as rugas e as ancas largas de uma mulher que só os homens parecem, apesar das campanhas contrárias, teimosamente manter”. Tudo isso para dizer que não há culpados versus inocentes. Pequenos perversos polimorfos no inconsciente, somos todos culpados, diz a moral sexual civilizada. Alguém te disse que seus narradores e suas personagens são bolsominionzinhos? Pois é, lá no pior de nós, talvez todos sejamos. A diferença é que lutamos contra nosso pior e, no melhor dos casos, não matamos, não ateamos fogo nos outros, não achamos uma boa ideia carregar uma arma na cintura. Por quê? Porque há potencial destrutivo em nós, diria Freud no Mal-estar. Não temos como sublimar tudo, não temos como vaporizar as pulsões, as palavras ajudam nisso, mas não dão conta de tudo. Inventaram a palavra injuriosa para que não metamos o pedaço de pau na cabeça do outro, disse Freud também.

 

Os sentimentos de ciúme, ódio, degradação sexual do outro, elementos presentes no seu texto, são demasiadamente humanos e dizem de uma posição infantil comum a todos, nuns mais intensos, noutros menos. Na passagem “Não usava ódio, álcool, cigarro nem outras drogas”, me arrepiou a beleza que você conseguiu construir com as palavras. Dizer sem precisar dizer, a frase como um vórtice de significados. Outro exemplo: “Rosa não queria filhos, pois já possuía uma verruga com pelos na coxa direita”. É como dizer: precisa mesmo ter uma razão para alguém não querer ter filhos? Achei genial! Outro ainda: “A Rana dessecou meu coração com veneno. O amor é veneno forte”. Gostei muito dessa frase porque ando às voltas com o veneno. São muitos exemplos que dizem da beleza de sua literatura.

 

Ainda que falemos em humanidade como um todo, só há possibilidade de trabalho quando pensamos na singularidade, tanto na psicanálise como na literatura. Você estava preocupado se eu conseguiria ler suas vísceras sem precisar de pausa a cada texto, pois bem, é com isso que eu trabalho. Já ouvi tantas coisas cruas, que suas letras, recobertas pela estética literária, são músicas para meus olhos.

 

Outra coisa notável no seu texto são as diversas referências literárias (e outras) que povoam cada conto. Mesmo o cara que detesta motos pode ficar roseanamente “comovido como o diabo”. Ou aquele que fica doidão ao estilo “Júpiter Maçã”. O narrador aliviado porque o rapaz que queria “que o mundo acabasse, sugerindo suicídio” não leu Werther. Ou Penélope, a esposa que deveria, mas não espera o marido. Ela não faz nós enquanto espera, ela dá nó no marido cornudo. Aliás, dois ou três textos sobre homens que levam guampa e, machões, ficam inertes. É isso! Todos temos nossas fragilidades, nossas formas de gozar.

 

Enfim, seu livro me fez companhia e me trouxe vários alívios. Para alguns pode parecer insuportável remexer nas vísceras, para mim, é o que me faz sentir humana. Obrigada! E parabéns pelo livro.

 

Campo Grande, 25 de dezembro de 2021

Isloany Machado

Share |

quarta-feira, 28 de abril de 2021

DEVIR

 


DEVIR


Eu não quero ser famoso,

decidi, tá decidido,

porque pode ser danoso

pra caramba; por ouvido,


por vistado, o lance é osso,

tem alcance mal diviso,

com futuro de colosso.

Superego: mais juízo.


Do famoso, faz-se busto,

na pracinha, ali, bem perto,

e inaugura-se a ribombos.


Eis, esquecido, sem custo, 

um ridículo coberto

por excrementos de pombos.


CG - 19/11/20

Img - https://diariodorio.com/

***



Share |

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

PRÓXIMA QUESTÃO

 

PRÓXIMA QUESTÃO

 

Não sei por que nascemos e vivemos,

se Deus nos fez, ou não, mas acredito

que deva haver motivo, um ato, um icto,

a fim de que vivamos, e vazemos.

 

Embora sempre estarmos, mais ou menos,

em sendas angulares, eu medito

que a vida vem dos céus, em veredicto

d'algum plenipotente, por que, amenos,

 

amemos condição tão duvidosa.

Quem ousa perquirir o firmamento

se perde nas perguntas, não se dosa,

 

tamanha a infinitude dos segredos.

Na gana de reter o vão momento,

escapa-lhe das mãos, por entre os dedos.

 

CG - 17/12/2020

 

Img. by Pinterest

#soneto


Share |

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

DISPERSÃO

 



DISPERSÃO


Eu só preciso ser feliz

se tiver o senhor comigo,

a gente correndo perigo,

ou se safando, ou por um triz.


E é bem simples se me diz

as palavrinhas certas, ligo

a dispersão, ó meu amigo,

a despertar azuis febris.


Ó minha amiga, meu amor,

tá combinado direitinho.

Como num sonho, eu engatinho


até seu quarto, peregrino,

chego ao sublime em que arruíno

os nossos corpos, com tremor.


CG - 22/10/20


Imagem: Rogier van der Weyden - Portrait of a woman - circa 1464.


Share |

sexta-feira, 17 de julho de 2020

UM HOMEM

UM HOMEM

Um homem, sua casa, sua vida,
um homem de família, tudo bem,
um homem responsável, mas, também,
um homem que mantém uma ferida

no dentro de seu peito, que é refém
do ferimento, que não cicatriza,
e reza, dá beijinhos, humaniza;
seu mal de estimação não se contém,

tomando-lhe as entranhas; o organismo
reclama: Tá difícil, vou romper
o pacto com você, porque consomem

seus males energia, com cinismo,
que há mais de um coração, a se saber,
você não há de ser apenas homem.

CG - 17/07/20

Img. PNGWing




Share |

quarta-feira, 15 de julho de 2020

CONSAGRAÇÃO DO MENOS



CONSAGRAÇÃO DO MENOS

O bom de profanar-me a todo instante,
sentindo-me senhor de meu nariz,
permite-me sonhar com flor-de-lis,
à vista deste espelho radiante.

O bom de liquidar-me, tão constante,
com rápidas consultas ao que diz
de modo especular minha matriz,
profunda em seu olhar, em seu semblante,

o bom é a danação, a desistência
de ser e de servir de modelinho,
padrão de hipocrisia bem fornido,

o bom é a doação de uma existência,
com foco na verdade em desalinho,
ao fogo que consome e é consumido.

CG - 15/07/20

Share |

quinta-feira, 9 de julho de 2020

DUAS MULHERES



DUAS MULHERES

para Allan Sieber

Sou fã da representatividade,
embora não me encaixe. Desocupo
o campo reservado à pós-verdade,
só sei compor soneto por apupo.

Percebes que mereço... mas quem há-de
mascar-me tal chicletes? Se eu exulto
e exalto-me ao xadrez da liberdade,
é crise de meu credo, não tem vulto.

Sabor de tutti-frutti, de hortelã,
açúcar de montão, com seu élan
azul ou rosa-choque, como queiras.

Eu sou duas mulheres no meu couro,
que são negras e sambam para o louro,
que são lésbicas brancas e roqueiras.

CG - 09/07/20

Imagem de Allan Sieber:
“Treat me like a rich white lesbian” (2018)
Acrílica em tela 70 x 70 cm
Share |

terça-feira, 7 de julho de 2020

ARTE INCÔMODA
















ARTE INCÔMODA

Em artes que incomodam, resplandeço,
avanço por contenda, por entente,
em riste a minha lança tem acesso
a corações de paina onipotente.

Às artes que incomodam, o processo
se dá por desistência e não por tente,
entendo por fracasso o meu sucesso,
perdi mais uma vez e estou contente.

Estranho ser artista desse jeito,
de gênero, de senso, de conceito
libertos das correntes tão em voga?

Eu penso que resposta não me cabe,
com todo cabimento, menoscabe,
partindo da questão que me interroga.

CG - 04/07/20

Share |

sábado, 26 de outubro de 2019

OFERENDAS



OFERENDAS

Ofertam-me do vinho, por que eu fique
em fogo nesse altar, mais dedicado
ao pasto das ovelhas, meu bocado
de dores e desgarros, com chilique.

Ofertam-me do vinho delicado,
delícia que extasia a tremelique,
lanternas de varal (repito o chique
Rimbaud), em arrebalde desligado.

Insistem-me, com vinho, que os liberte
das trevas da existência na matéria.
Garrafas? Para mim? Desengarrafo.

Entanto, se sugerem: "Não me aperte
na pele a dentição! Nenhuma artéria!",
sugiro uma oferenda de marafo.

Campo Grande, 26 de outrubro de 2019.
*** Img. St. Benedict Catholic Church - Doniphan, Missouri

Share |

Máscara












Máscara

Se a máscara traveste-se de seu
senhor, sua senhora, amplificando
o gosto que há de solo, já desceu
ao fundo dos abissos, por seu bando.

Se a máscara corrompe o que é de Deus,
assiste com seu fado o mais nefando,
o tal ranger de dentes, um adeus
à Cruz, a Jesus Cristo, preservando.

Se a máscara falseia, com tiquinhos,
O Todo-Poderoso dos benquistos,
não sente o senciente sem Ciência.

Se a máscara da dor tem buraquinhos
nos olhos, para ver e, serem vistos,
é certo que se cole a sua essência.

*** Img Greek Mask
Share |

terça-feira, 24 de setembro de 2019

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

A adolescente fuma



A adolescente fuma

Este é o seu ar de lânguida ninfeta,
um ar de viciada afetação.
Cinzeiros e cigarros, obsoleta
mania de existência sem ação.

O tédio glorifica a estatueta
de fumo de aparente mansidão
e plange suas lágrimas de peta,
a fim de devotar-se à solidão.

Distante de evoés, de momos, "Sim"
não serve de palavra à sua língua,
composta por silêncios e sigilo.

É seu apartamento de marfim
durante o pesadelo em que se míngua
a chance de uma paz à bicho-grilo.

*** Img - Fils Santé Jeunes.
Share |

sábado, 29 de junho de 2019

EME


 













EME

Eu morro de vergonha desse cara
com cara de palerma o tempo todo.
Seu ar de idiotia se equipara
aos ogros trogloditas, a seu lodo.

Ao lado de quadrúpedes, seus pares,
de quatro permanece, meditando
em como meditar em malabares
em câmera lentíssima, até quando?

De súbito, desperta para a fala,
e, eureca!, regurgita as altas teses,
em hétera retórica de bala.

Tem mérito o discurso sem vieses,
com rúmen verde-oliva, porque exala
o melhor que há de si: as suas fezes.
***
Share |

domingo, 10 de junho de 2018

À xoxota do patriarcado


À xoxota do patriarcado

Este sistema em si é decadente:
sistema cis. Uma nomenclatura
de gente com consciência de paúra
político-bovina inconsequente.

Se tudo o que se diz é o que se sente,
não vejo um só sentido na gastura
da porra de uma causa, uma aventura
em frente à reitoria, com corrente,
 
algemas masoquistas, um fuminho,
garrafa de Ypióca, Danoninho,
o número dos pais no celular.

E filmam se a polícia comparece,
é ditadura, caos (sem Hermann Hesse),
com créditos, legendas, um "olhar". 

Campo Grande, 10 de junho de 2018.
Henrique Pimenta

 
Img: Pinterest


Share |

sábado, 2 de junho de 2018

Ficção


 

FICÇÃO

Esta avenida noire foi enquadrada
nas lentes de uma câmera qualquer,
com vestes nebulosas de mulher
de lânguida beleza antepassada.

Um filme em preto e branco, uma pitada
de Europa, a americana com donaire,
despindo-se aos pouquinhos, fecho-éclair,
botões, seu coração na madrugada.

O corpo se apresenta com refino,
amálgama sem gama amanhecendo,
amálgama sem alma de manhã.

O corpo permanece feminino,
tão negro quanto o asfalto sem remendo,
tão negro, sem calcinha, sutiã.

*** Mais um texto dedicado à avenida Zahran.
*** Clique meu nesta madrugada.
Share |

sábado, 12 de maio de 2018

Ao arrebol




Ao arrebol

O rústico silêncio desembrulho.
Um pouco que há de paz, delicadeza.
Procuro solitude à natureza.
Dirijo-me ao riacho do Mergulho.

Em meio a tanto verde, madureza
de minhas inocências, o barulho
revela que cheguei. A água vasculho.
Meus olhos veem de perto, com surpresa,

decerto que distinguem um ser vivo,
cabelos amarelos e nudez,
tal ninfa devotada ao arrebol:

sem fôlego, mergulha ao vão nocivo,
retorna à superfície, em morbidez,
a tira, no pescoço, de um lençol.

*** Img in http://www.tate.org.uk - Ophelia - 1851-2 - by Sir John Everett Millais, Bt
Share |